quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O Recife: retalhos da história

Fátima Quintas





Tenho em mãos gravuras da cidade em que nasci. E a lembrança fragmenta os fatos. Um ali, outro acolá. Pedaços que permanecem vivos na memória histórica. Importa, todavia, recordar o que não vi.

O Recife surgiu de um pequeno povoado de pescadores no areial defronte dos arrecifes, gente humilde que vivia em torno das águas dos rios e do mar. Pouco a pouco a região começou a receber as embarcações que vinham da Europa, trazendo mercadorias para os habitantes de Olinda. Entrementes, acelerava-se o embarque de açúcar, pau-brasil e outros produtos que daqui migraram. O movimento das embarcações crescia, a reclamar a construção de armazéns, à época, chamados de “passos”. Casas de residências de trabalhadores surgiam; comerciantes também se instalavam em sobrados, utilizados tanto para moradia, os andares superiores, como para o comércio, os pavimentos térreos. O Largo do Corpo Santo adquiria uma feição bela. E eu o vejo nas gravuras à minha frente.

Assim o bairro se desenvolvia; a primeira igreja levantada foi a capela de “Santo Telmo”, ou “Santelmo”, origem da Matriz do Corpo Santo. Os holandeses, ao chegar, instalaram-se em um prédio defronte dessa igreja e aí fincaram a sede do governo. Trataram logo de aterrar os alagados para expandir seus domínios. A ”Aldeia do Recife” ganhava novos ares. Ainda que a sua evolução tenha sido rápida, somente em 1709 o Recife foi elevado à categoria de vila e, mais de cem anos depois, 1823, alçou a hegemonia de cidade. Em 1827, adquiriu o título de capital da província de Pernambuco, retirando de Olinda tal regalia.

A história do Recife não pode ser esquecida, mesmo que a sua linhagem arquitetônica tenha sofrido perversas demolições: arcos, monumentos, igrejas, palácios (como o das Duas Torres ou o da Boa Vista). Vale registrar que, em 1644, Maurício de Nassau inaugurou uma ponte de madeira, ligando o bairro do Recife ao de Santo Antônio. No ano de 1865 a ponte foi substituída por uma de ferro, feita na Inglaterra e semelhante à da Boa Vista dos dias atuais. Saliente-se que, em 1917, sofreu uma grande reforma, mudando a estrutura para concreto e adotando o nome de Ponte Maurício de Nassau. Há uma história de saudade nessa ponte, aliás, de intensa saudade: dois arcos se exibiam, um em cada extremidade — o de Santo Antônio, construído em 1743 e demolido em 1917, arquitetura simples e bem menor do que o Arco da Conceição, que ficava na outra ponta. O primeiro arco tinha um nicho no alto, o qual, em 1746, recebeu uma imagem de Santo Antônio, esculpida em pedra pelo entalhador João Pereira. Por esse motivo, no dia 13 de junho, dia do santo patrono, festas religiosas e profanas ali se realizavam. A propósito: o Arco da Conceição, de acordo com as gravuras/fotografias, transbordava beleza e foi impiedosamente demolido em 1913. Igualmente ali aconteciam, no dia 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, inúmeras festas com participação popular. O comércio da redondeza fechava; as devoções revelavam o respeito da população à arte e ao místico; a fé recrudescia nas promessas encomendadas.

E a Cruz do Patrão? Coluna dórica, erigida em fins do século XVII, com seis metros de altura, encimada por uma cruz latina. Marco para os navios que entravam no Porto. Nas suas imediações, escravos eram enterrados, descuidadamente, ao léu. Sabe-se que muitos escravos não receberam acolhimento em modestas “sepulturas”, jogados na praia, corpos abandonados, o que causou grande espanto em cronistas, como relata a inglesa Maria Graham que presenciou urubus pinicando braços inertes. Por algum tempo, disseminou-se uma lenda: o local da Cruz do Patrão deveria ser evitado, sobretudo à noite, de onde sopravam lancinantes gemidos ou miragens de almas penadas. A Cruz do Patrão ainda existe; localiza-se ao sul do Forte do Brum.

A Rua 1º de Março tevê o nome de Rua do Crespo porque nela residiu o português Manuel de Sousa Crespo, que chegou ao Recife em 1648. O nome foi mudado para 1º de março, em 1879, com o objetivo de registrar o dia do fim da Guerra do Paraguai. Circulavam bondes de tração animal sobre trilhos, somente substituídos em 1914. Bom lembrar que a Livraria Ramiro Costa, uma das lojas mais tradicionais do Recife no século passado, inaugurou-se em 1888, exatamente nessa rua.
Muitos retalhos não sobreviveram. O Recife chora as perdas.

Mauro Mota, uma homenagem

Fátima Quintas





Novembro é um mês que aumenta a minha saudade, ao lembrar da morte do poeta Mauro Mota — 22-11-1984 —, um dos maiores de Pernambuco. Na ciranda da vida moderna, a tendência, aliás, lamentável tendência, é esquecer escritores e antepassados que deixaram herança literária, sentimental, afetiva, parte da nossa biografia. Se o tempo gira numa célere velocidade, dias se encurtam, meses se evaporam num piscar de olhos, anos já não dispõem do vagar de outrora... É preciso reavivar a memória e cultuar os entes queridos. Mauro Mota pertence ao mundo. Transcende épocas. Ultrapassa a pobre cronologia dos calendários vencidos. Suas palavras, suas canções de amor e de morte, sua melodia escandida em belas mensagens se expandem no ar, qual borboletas que se metamorfoseiam, porém nunca fenecem na linguagem da magia. Os poemas mauromoteanos tocam a alma, afagam a pele, serenam o espírito e se eternizam em ecos cadenciados: “Vem vindo o vento violento/ praticar infanticídios./Mata as rosas em botão,/ rosas cobrem outras rosas/deixadas mortas no chão”.

Pensar a poesia de Mauro é debulhar a emoção latejante, o vento que assobia em tempestade ou em brisa candente, as rosas que baqueiam, os suspiros que emudecem ou os gritos que sufocam a garganta, a pedir para bradar sentimentos recolhidos. Pensar a poesia de Mauro é receber o aroma da nostalgia ou a ondulação do verbo ser em vasta plenitude. Pensar a poesia de Mauro é vê-lo de novo perto de mim, brincadeiras constantes, riso animado, ironia sutil, às vezes nem tão sutil assim, ainda que nunca ofensiva, mas versátil, espontânea, inesperada.

Sei que sou uma privilegiada porque convivi com uma plêiade de intelectuais que me ofertaram um legado intransmissível. Mauro Mota pertenceu a esse grupo de elite pensante, de sensibilidade à flor da pele, de percepção especial, a traduzirem-se em palavras expressivas, plenas de significação. “A chuva cai sobre o Recife devagar,/ banha o Recife,/ apaga a lua,/ lava a noite, molha o rio,/ e a madrugada neste bar./ [...] A chuva cai, desce das torres das igrejas do Recife,/ corre nas ruas, e nestas ruas, ainda há pouco tão vazias,/ agora passam, de capote, transeuntes/ do tempo longe, esses fantasmas de mãos frias”.

Do sobrado da Rua Amélia avistava Mauro chegando ou saindo, eu, na janela, tímida de juventude. Porte fidalgo, o dele, semblante tranquilo e aquele jeito todo seu de apreender o mundo. À mesa do jantar, o despojamento e a conversa bem afiada. Naquele sobrado o meu universo se enriqueceu com gestos e louvores de amizade. Ao fim da noite, a música clássica servia de pano de fundo ao sono que se anunciava. Longas conversas prolongavam-se madrugada adentro, o silêncio da noite, Mauro lendo poesia ou prosa. Recordo-me de um sábado em que recitou de cor Manuel Bandeira e depois começou a ler “Infância” de Graciliano Ramos. Lia, relia, comentava, mergulhava no texto.

Vez por outra, Marcos Vinícios Vilaça, acompanhado de Maria do Carmo, entrava de supetão, e o bate-papo se animava. A sensação se traduzia em horas que ali se estendiam para além dos minutos cravados no relógio. E a sala se ungia de literatura marcante. Havia mais que sabedoria espalhada no ar; era o tempo da liturgia estética. As vozes se misturavam, mas a elegia de Mauro se fazia ouvir por todos os lados. Um dia me perguntou: “O poeta no momento de criar encontra-se feliz ou triste?”. Olhamo-nos silenciosamente.

A recordação ilumina o passado com fachos vibrantes. As imagens agora nítidas perdem qualquer nebulosidade. Novembro não é mais saudade. É lembrança. Ressurreição. Singeleza evocativa. O poeta está vivo, vivíssimo, a repetir em voz branda: “Debruço-me de fora/onde havia janela./Nuvem ou casa extinta?/ Lá estou como eu era”.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Saudades e retalhos

Fátima Quintas




Não faz tanto tempo que convivi com o poeta e amigo Mauro Mota. Parece que foi ontem, tal a vividez com que o conservo na lembrança. Eu era apenas uma adolescente à procura de mim mesma, uma procura que nunca cessou; prossegue com a mesma volúpia, pulsão inerente ao ser. Mas, de repente, cresci. Fiquei diferente. Somaram-se reminiscências. Sou o resultado de um tempo de memória. E recordo. Neste instante acodem-me os versos do poeta pernambucano: “Quero deixar-me longe. Separar-me/ de mim. Abandonar-me. Ser-me estranho./ Parto, mas, onde chego, me reencontro./Despeço-me de novo e me acompanho”.

As metáforas me levam à reflexão. A solidão é apenas física, nunca ontológica. Estamos juntos na multiplicidade dos eus. Em cada pedaço, uma partícula e, em cada partícula, a unidade. Contradição? Não há como fugir dos estilhaços que compõem o lastro existencial, por isso carrego as frações internas, algumas em sintagma, outras singularizadas, uma a uma, a desenhar uma paisagem plena de recortes.

Ando por aí, perseguindo o desejo de defrontar-me com os eus. E eis-me diante de um velho sobrado, desconhecido, anônimo. Olho-o. De novo reavivo imagens do poeta: “A sombra dele escorrega/ defronte, também, há três/ séculos, e escora a sombra de outro sobrado holandês.” Estou no bairro de São José; perscruto atentamente o casario longilíneo. O quadro em descompasso me aproxima, não me afasta. Prédios conjugados: alguns relativamente em forma; outros decadentes. Toda decadência tem um quê de dignidade porque se mescla com o mistério das coisas por findar, algo instigante, fantasmático.

Os fragmentos de mim, vejo-os; a exterioridade das paredes em declínio, também as vejo. Há uma fusão no cenário. Tijolos começam a desprender-se do velho sobrado, tão parecido à montagem do meu retrato. Estou em toda a parte e em lugar nenhum, e, no entanto, sou sólida catedral, porque existo, porque sinto, porque hospedo sentimentos universais. As palavras brotam, dispersas, à semelhança dos pedaços que me dividem e me multiplicam. Há um crescimento interior que ganha intensidade e volume à medida que o calendário avança. Já fui ontem; hoje, sou agora; e será que não serei futuro ao concluir esta frase? As minhas circunstâncias mudam, dia a dia os retalhos aumentam e acompanham-me para onde eu vou. O caro poeta tem toda razão. Quem disse que me aparto dos eus? Sou uma sombra no sobrado que me recebe em quietude. Sob a sua proteção, sinto-me companheira de todo o desmonte físico que o acomete. A desconstrução faz parte do próprio mundo. Do meu e do sobrado. O importante é vigiar com atenção os entulhos que se amontoam na caminhada.

A memória me agasalha na lembrança infinda. Mauro Mota indaga: “Que homens e passarinhos aqui germinarão?” A semente que fecunda está dentro de cada um, a alimentar o jardim das ternuras, a adubar emoções que explodem em outras plagas. A humanidade desabrolha ao surgir da alvorada, quando as esperanças renascem, grãos que frutificam a condição humana.

O sobrado sacolejou o meu nicho de saudades. Não sei bem por quê. Nem quero adivinhar. Basta-me compreender o que aparento e o que o sobrado expõe. Do lado de fora, o excesso de visibilidade; do lado de dentro, eu me escondo em frágeis subterfúgios. No fundo, as saudades se avolumam; misturo emoções, retorno à adolescência, à Rua Amélia, à Bento de Loyola — ruas onde morava Mauro Mota —, às conversas ao anoitecer, ao riso generoso, à bondade ilimitada, à fina ironia, ao lirismo, ao romantismo, aos poemas profundos, a uma época que me pertence e que me ajuda a superpor os meus retalhos. Mais uma vez repito versos que ressoam, e ressoam com a força da presentificação. Então descubro que há um só tempo — o que vivo: “Vou em busca do ter-sido./Desapareço no espaço./ Fico de novo perdido./Procuro-me, e não me acho”.

Viver consiste na intensa procura e na certeza de nunca achar.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

No lusco-fusco

Fátima Quintas



O acordar traz sensações diversas. Há dias que a gente amanhece leve, a voar como um pássaro, planos sólidos, esperanças confiantes; as pálpebras se abrem diante de um céu azul, limpidez no horizonte, estado quase de levitação. Noutros, as emoções diferem: os olhos pesam, a natureza parece estática, o sopro das reminiscências soa mais alto. Somos contraditórios dentro de uma coerência cotidiana. Pois é, hoje despertei um tanto escura.

Há fachos de penumbra em mim neste instante. Não adianta enganar-me: a tropicalidade, com o excesso de raios luminosos, me turva. O sol clareia demais os sentimentos, tornando-os enodoados; a minha timidez opta por guardá-los em gavetas cerradas. Prefiro reservá-los nos nichos do inconsciente que devastá-los na ostentação dos holofotes. O mundo se mostra tão truculento que tenho receio do seu aparente fausto. As noites, essas me recebem sob o agasalho da recatada intimidade. Delicio-me com os fins de tarde, quando a luz perde a imponência maior. Pode parecer estranho; mas é no escuro que meus olhos fisgam o imperceptível.

Acordo imbuída do prazer estelar. E, no entanto, o quarto de dormir se deixa banhar pelos feixes do sol. A janela, devasso-a para respirar o oxigênio da renovação. Tenho sede de vida; vou vigiar o lusco-fusco com o intuito de entregar-me por inteiro à sabedoria dos despojados. Antes, todavia, há muito o que fazer: irei ao banco, pagarei contas, despacharei os papéis que se avolumam no bureau, aborrecer-me-ei com o gerenciamento do dia. Caminharei de um lado para o outro a resolver detalhes burocráticos: o corpo se cansará na rede imbricada das relações formais e, depois, o cansaço da labuta me impelirá ao claustro — ao quarto de estudo. Apagarei as luzes, acenderei uma vela, olharei atentamente para a chama, então rapidamente me recuperarei dos inúteis afazeres.

Os relógios se consumiram na inapetência de atos administrativos. Os olhos se gastaram espiando homens e mulheres devorados pela gangorra da burocracia. Estou a salvo. Tomo um banho. Purifico-me. O ritual do sossego se inicia: no silêncio da noite e na placidez da vela. A essa hora não ouço os ruídos das construções circunvizinhas, a campainha da porta, a velocidade dos carros, o burburinho de vozes em conversas desinteressantes, as discórdias do mundo... Escuto apenas a quietude da lua se escondendo ou despontando à meia-noite.

Não penso em nada. Quero esvaziar-me das nódoas de uma insípida manhã. Sinto-me completa na liturgia da vela; é tempo de apreciá-la. A chama se transforma de minuto a minuto, constante mutação, um vir-a-ser ao ritmo do filósofo Heráclito, tudo em plena circunvolunção, e agora, e depois do agora, e o mesmo agora, e o presente dilapidando o instante, e Clarice Lispector a se perguntar pelo “é”...

Fecho os olhos. Enxergo-me. A vela continua na cadência do fogo. Mergulho na ausência das coisas para depois absorvê-las com maior intensidade. Foi não foi, é necessário uma faxina interior, rasgar as emoções com a intenção de substituí-las. Qual o quê! Não serei capaz de anular minhas lembranças; por mais que me esforce, é vão todo o propósito. O inconsciente se encarrega de reter o que quero e o que não quero. Um jogo de subjetivações para o qual me doo com um certo gozo.

O tempo firma a madrugada. Durmo ao embalo de um vazio proposital, ainda que a cada dia cresçam as minhas ressonâncias. E não há como escapar da menor recordação: chego à conclusão de que o meu problema é tão somente esquecer... Impossível. A memória define minha identidade. O resumo do meu “eu” corresponde ao espaço da evocação. Assim, em um poço de oposições, vou edificando dias e noites.

Amanhã, acordarei mais clara e escreverei sob a ode das cores, até berrantes, quem sabe? Hoje estou escura. Ao modo de Drummond: “estou escuro, estou rigorosamente noturno, estou vazio”.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Letra viva

Fátima Quintas




Preciso da literatura como preciso do ar para respirar. A ficção me acalenta com sua intricada urdidura e sua aura imaginativa. A liberdade se reduz ao voo da criatividade. Pensar sem barreiras permite que a alma desabroche e corresponde à janela aberta de ponta a ponta, sem divisórias entre o espaço da natureza e o espaço que me habita. Sou um bloco uníssono quando me disponho a olhar para fora e para dentro de mim, através de um diálogo íntimo e, por que não?, egoísta. Ler as entrelinhas diz do maior mistério da letra viva. E a letra só tem caráter intrínseco transformada em substância latejante, imersa na identidade própria e na sutil significação. Não há como fugir do implícito, nele reverberam as possíveis "verdades" da escrita. Clarice Lispector antecipava: "Mas já que há de se escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas". A vida só tem sentido imaginada, e não vivida concretamente. A ilusão ganha vigor pulsante. O jogo do dia e da noite serve de lastro às utopias inscritas e escritas no espírito. Então o valor da palavra se desdobra para além de si, alcançando horizontes longínquos, às vezes esfumados na nossa inspiração. E o caminho se perde no infinito do devaneio.

Quando Virginia Woolf quebrou os tabus de uma escrita limitante, assumiu a autenticidade de si própria. Não se deixou debulhar em parâmetros impostos, mas dilacerou as amarras que porventura a sufocavam. Escreveu em pleno gozo de sua saudável loucura - delírio suicida. Entregou-se de corpo e alma a um sonho impossível. O sonho foi maior que ela, arrebatando-lhe a vida. Nem por isso seus textos anularam a largueza de uma prodigiosa transfiguração. Perenizou-se. O ato de existir reclama um processo de transcendência. Se a escrita carimba o selo da constância, deve-se à letra o poder de conquistar uma lembrança que não esmorece com o tempo, porém vence a cronologia para galgar a duração de um signo eterno. A letra consigna a força que detém.

Guimarães Rosa se enredou num vocabulário original, quis lidar com palavras comuns e incomuns, ressignificou o nome mediante a capacidade de gestar um pensamento tão regional quanto universal. Suas frases vêm carregadas de belos enigmas: "A gente só sabe bem aquilo que não entende". "Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor talvez ache mais do eu que a minha verdade". "Meu duvidar é uma petição de mais certeza". "Mente pouco, quem a verdade toda diz". "Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura". São as entrelinhas que dignificam a escrita. O explícito empobrece, banaliza o que deve se esconder, oferece-se sem cerimônias. Ocultar prenuncia a sabedoria daqueles que dominam o que dizem. Assim acontece com os poetas que metaforizam os versos e revelam apenas a metade das significâncias. Para que ir além? Basta caracterizar o não dito na simbologia do que se quer dizer. Então temos o verso incompleto e absolutamente completo.

Fernando Pessoa brinca com a nudez e com a reclusão das palavras: "A minha alma partiu-se como um vaso vazio./ Caiu pela escada excessivamente abaixo./ Caiu das mãos da criada descuidada./ Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso". A ficção é a verdade que conheço. Nem quero outra. Inventar me encoraja a viver, única forma que encontro para driblar as curvas acentuadas da estrada. Se me invento, revelo-me pelo avesso. E o avesso nunca mente, reflexo de um eu não lapidado, quase cru na essência, mais puro e menos danificado pela ventania ontológica. O que me salva e me condena são as entrelinhas, as hesitações diuturnas, a volúpia de criar novos cenários num picadeiro por mim construído. Há o riso, há o choro, há a expectativa, há a atenção... e a rede do circo não existe. Nem por isso o trapézio minimiza o perigo. As entrelinhas me acompanham no mistério e no mágico da letra. Ainda bem.