sábado, 27 de maio de 2017

Viagem de Táxi


Entrei no táxi, um carro de tamanho médio, não conferi a marca; de pronto, o espaço interno me chamou a atenção. No chão, pequenos tapetes de cores diferentes, nos assentos e encostos, mantas verdes distribuídas ordenadamente, além de variados pôsteres do Coração de Jesus e de Nossa Senhora da Conceição.  A decoração transmitia um misto de fé e de mau gosto, cenário sem a mínima harmonia estética. O chofer assumiu a direção — gordo, falante, dionisíaco. Deu-me um largo bom-dia, o cabelo preto, liso e sedoso, modelava o rosto, sobrancelhas grossas, lábios polpudos, face rosada, a imagem projetava um temperamento extrovertido, pulsante. Sentei-me e ouvi um convicto monólogo: “Sou um homem que acredita em Deus, nos santos, nas ordens do céu. Trabalho com prazer, conheço ruas, avenidas, praças e tenho a certeza de que vou para o paraíso celestial. Nada é feito sem o comando do lado de lá. Não há razão de infelicidades; basta acreditar na glória divina”. 
Surpresa com tantas divagações, perguntei: “Desde quando o senhor é taxista?” Ele virou o rosto e fitou-me: “Sou formado em Direito, empreguei-me numa média empresa, mas a monotonia do trabalho e o salário baixo levaram-me a pensar em outra profissão. Então decidi fazer alguma coisa mais dinâmica, que tivesse contato direto com as pessoas; gosto de gente, de conversar, de conhecer o mundo através das ideias do outro. Aqui eu convivo com rostos diversos, do mais eloquente ao mais humilde. Neste carro transitam ateus, católicos, evangélicos... Sabe, doutora, a religião condiciona o comportamento humano. A razão e a emoção dependem da estrutura de cada um; todos os indivíduos são enriquecidos por um aprendizado diário. A religião é a base, mas não somente; a educação tem valor imprescindível. E o nosso país carece de elementos de origem. Daí o caos em que mergulhou”.
Saí do carro um tanto atordoada. Havia um claro descompasso entre a estética, a religião e a existência. Em tão pouco tempo, não fui capaz de discernir os hiatos predominantes. De qualquer forma, constatei mais uma vez, a complexidade inerente ao ser humano. E o taxista se foi, perfilando o mistério de cada um.
Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras. E—mail: fquintas84@terra.com.br       


Zonza-zonza


O mundo gira ao meu redor. Estou zonza. Não sou, entretanto, o epicentro de um mandala em cuja construção sequer colaborei –  esse rabisco geográfico que se chama espaço elaboraram-no por mim. Vejo o que é concreto, mas enxergo com mais profundidade o abstrato, o invisível, as entrelinhas. A obviedade me fatiga, não me seduzem as conclusões aligeiradas, fruto de óbvias inferências. Os revestimentos artificiais não resistem à ação da menor ventania. Qualquer aragem supostamente rebelde poderá esgarçar o modelo da circunferência. Disseram-me, ainda pequenina, que o universo é redondo, daí o excesso de zonzeira que me acode. Ao lado dos códigos irrefutáveis, descubro o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: “As cousas não têm significação – têm existência./ As cousas são o único sentido oculto das cousas.”
Vale o que sinto, não o que apalpo. Capto o inexistente. Não estou presa ao círculo sensorial, nem comungo dos ensinamentos dogmáticos. Exaurem-me as ideias concebidas sob severas precisões. A minha humanidade rejeita qualquer verbo conjugado no imperativo. Esqueço os mandamentos que um dia me subjugaram ao receituário da perfeição, vou além, abandono as virtudes inodoras e incolores...  Quantas vezes andei sobre pedregulhos? Vivo o minuto, cada um, não traço planos para o instante que se segue; ele já passou,  nada fiz, deixei-o ao largo, um tanto à deriva — eu própria navego em um barco adernado. Voltarei à proa. Careço da imensidão dos horizontes, dos portos inatingíveis, de tudo que me leve ao desatino do sonho. Busco a volatilidade da criação e as miragens arquetípicas...  “Meus sonhos têm asas/ e saem do mar”.
Tenho lápis e papel. Faltam-me, contudo, palavras. Tento juntá-las, mas os sons não se harmonizam, há sílabas a mais e imaginação a menos. Não me conformo com essa infertilidade, necessito expandir os limites do mundo ou reinventá-los à luz da libertação. Serei capaz de ultrapassar as fronteiras que me embargaram, ou a minha infante aventura é de tamanho diminuto?  A folha de papel, antes tão larga e desértica, nela não fui capaz de escrevinhar o nome desejo. E, em meio a eufemismos, escapo valentemente do parágrafo por concluir. Se neguei-me o direito da espontaneidade, pelos menos assumo a consciência da incompletude. 
Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras. Email: fquintas84@terra.com.br

sexta-feira, 3 de março de 2017

ÁLBUM DE FAMÍLIA

                                               

          
Os retratos me tocam.Chego a ter uma certa devoção pelos álbuns de família. Vejo-os não somente com os olhos, mas com todos os sentidos. As mãos apalpam rostos que não conheci; o olfato aspira a perfumes antigos que me inebriam; ouço vozes calorosas de tios, tias, avôs, avós, bisavós, bisavôs, parentes distantes com histórias belíssimas a contar. Fortuna de lembranças;relicário sagrado;tesouro de mim mesma.
            Pensar que os álbuns de família estavam sempre expostos à mesa da sala de estar nos tempos patriarcais e semipatriarcais! Todos a eles se achegavam, sortilégio que não faltava em nenhuma casa-grande. De pronto, os entes queridos ganhavam o timbre da eternidade. Assim, passei a conhecer muito alémdaquilo que pude assistir.  
            Se um dia o rosto existiu, por que não amá-lo através do esboço retratado? Sou uma privilegiada. Cruzo caminhos que conduzem aimaginação para outras vivências. E mais ainda: as histórias que irrompem dos retratos são histórias verdadeiras, retiradas de documentos fidedignos, garimpadas em velhos papéis, cheios de bolor, porém, capazes de oferecer detalhes mais cativantes que qualquer enredo ficcional. O que é a vida senão uma tentativa de copiar desejos espalhados em lugares anônimos, enigmáticos, ainda que tão próximos? Qualquer narrativa se constrói à guisa da soma de tempos que sequer consigo abstrair num conjunto fechado. Convivo com o que foi, nem por isso me sinto mais vulnerável pelo calendário extinto. O passado é mais consistente do que a efemeridade do instante. Existiu efetivamente e me permite debulhá-lo à minha maneira. Os contornos mudam nas reviviscências. A depender do meu estado de espírito, lanço a isca em alto mar ou retraio o anzol com medo da tempestade. Não preciso de grandes tormentas. As ondas mais altas são suficientes, em alguns momentos, para me assustarem, fazendo-me recuar na roda dos desafios.  
            Passo as páginas, uma a uma, do álbum sempre amado. O retrato me comunica planos evocativos: penteados, roupas, adornos,chapéus elegantes; portes aristocráticos, vestidos colados, sobrancelhas grossas, mais adiante adelgaçadas; blusas com babados, mangas compridas, decotes ousados em traje de gala; veludos, organzas, saías plissadas, algumas godês, outras levemente ajustadas, a alongar o corpo; paletós bem cortados, bengalas, bigodes, barbas zeladas com esmero, pince-nez; crianças, homens, mulheres...
            A textura em preto e branco explode. A imagem é bem mais forte que o simples papel. E há o implícito revelando-se devagar: toco na pele, na carne, na alma da gente que fala, que afaga, que repreende, que acarinha, que repassa liturgiasjá enevoadas.  Nada falta neste banquete nostálgico. Ele é tão meu que confesso a vontade incontrolável de preservá-lo, de retê-lo egoisticamente.Trago o pudor de quem sabe avaliar o inventário da vida. Eis-me diante do espetáculo dos que me aplaudiram em mera transcendência geracional. Os rostos me sacolejam. Os minutos exalam sentimentos de perda. Mas, o que seria de mim sem essa felicidade que tanto vivi? A saudade de hoje só tem razão de ser pela felicidade de ontem. Aliás, só conheço uma ou outra porque deixei de tê-las algum dia. A plenitude da presença impõe emoções irreversíveis, lá adiante, quando o vazio se instala.
            O tempo repousa plácido nas minhas mãos. Deixo-me observar pelos olhos dos que me veem. Os risos e as lágrimas apegam-se à memória como se a exposição de faces saltasse das páginas que já não são páginas, mas pedaços de mim. Não sei onde começa o presente e nem onde termina o passado. Ainda bem que tenho a vivaz consciência do ser, eu, todos os tempos em um mesmo tempo.
            O álbum de família permanece aberto. Minhas mãos tremem. Vejo e vivo sentimentos que são heranças imemoriais de uma história que, seguramente, é a minha própria história.


Fátima Quintas é membro da Academia Pernambucana de Letras. E-mail: fquintas84@terra.com.br 

A MULHER DA RUA NOVA




“Assim entro em várias casas,/ Através de várias ruas,/ Parando ante várias montras,/ Cumprimentando/Para um lado, para o outro...”
Rua Nova, um dia de semana qualquer. Nem recordo a data. Foi há algum tempo, na época em que as horas não me encurralavam; eu, descompromissada com o relógio,jovem, plena de esperança. O poema de José Régio me conduz a um passeio especial pelo centro do Recife:dezoito anos, cursando faculdade. Naquela tarde, tomei o ônibus sozinha e, sem rumo, desci na Avenida Dantas Barreto. Mês de julho, um tanto chuvoso, ou melhor, atmosfera nublada,ocasião propícia para um deambular sem destino. Mãos vazias, coração palpitando. De quê?
            Tomei a direção da Rua Nova. Transitei-a de ponta a ponta: entrei na Sloper, na Ethan, na Rialto...Cumprimentei pessoas conhecidas. Por fim, decidi visitar a Matriz de Santo Antônio, silenciosa, penumbrada, espécie de claustro, a abraçar um isolamento que não me dizia a que vinha. Sentei-me no longo banco, quase vazio; havia apenas uma mulher, olhando para frente, a rezar com a máxima contrição;sequer deu conta da minha presença. Fitei-a. Depoisolhei o teto, as paredes, o púlpito. A mulher permanecia imóvel.
            Uns trinta anos, cabelos pretos, nariz afilado, corpo magro, porte elegante. Assaltava-a um profundo sentimento de religiosidade; a prece rezada os lábios balbuciavam, ela acreditava no seu rogo. Havia fé no rosto plácido, anônimo. Terço à mão, os dedos “desgranavam” Ave-Marias e Pais-Nossos. Nada a detinha no monólogo sibilante.
            Do lado de fora da igreja, um homem vendia cachorro-quente e alardeava o produto. Outro, em posição oposta, exibia gravatas, bradando a beleza das listras e a qualidade da seda. Italianas. Importadas!!! Preço módico. Mais adiante, uma senhora expunha um balcão de bugigangas; as peças serviam para ornamentar colos ou braços femininos; ninguém hesitaria diante da estética dos colares e pulseiras. O zumzumzum aumentava ao embalo de vozes que barganhavam preços mais em conta.
            A uma distância pequena, o altar da igreja aplaudia a discrição dos que por lá se achegavam. A mulher ao meu lado suspirou por relaxamento. Guardou o terço na bolsa, enxugou uma lágrima, virou o rosto para me enxergar melhor e disse: “Você é tão jovem, mas tem um olhar triste. Não a tristeza que arranha o meu peito, essa não tem cura; é a minha sina. Moro aqui perto em um sobrado antigo, no primeiro andar; levo uma vida insignificante, não vou para lugar algum, trago a solidão a roer a alma. Venho à igreja todos os dias e gosto do burburinho da Rua Nova — os ecos reverberamcomo alimento da minhaexistência. Pela sacada do sobrado, vejo o mundo que se encerra no espaço da pequena rua. Namoros nascem, amantes brigam, homens e mulheres miram as montras, entram e saem das casas comerciais, vigiam-se sem conhecer; então, flertes irrompem e daí... Sou oca de vida; a Rua Nova é o meu refúgio. Frequento a igreja todos os dias, à mesma hora, peço a Deus o sentido do ser, e me basta”.
Gesto repentino, beijou-me a testa; se foi. Não me sobrou um segundo para dizer nada.
            No outro dia, voltei. Nunca mais vi a mulher da Rua Nova.

Fátima Quintas é membro da Academia Pernambucana de Letras.
E-mail:fquintas84@terra.com.br        


quarta-feira, 23 de março de 2016

TEMPO DE HOMENS PARTIDOS



Da varanda do meu prédio, vejo o mundo se agitando. As árvores dos fundos de quintal neutralizam o som dos carros; criam um hiato entre o que se passa do lado de lá e o que se passa do lado de cá — linha divisória a formar um meio círculo, como se o meu mundo se dividisse entre a minha intimidade e a explosão de ruídos que se espalham no espaço público. Entre a casa e a rua existem insondáveis mistérios.
            Tenho dito sempre que gosto do recôndito, daquele cantinho que é meu, das reflexões do quarto de estudo, dos livros que leio e releio, de tudo que diz respeito a minha pessoalidade. Sou um ser latejante de emoções, não receio a lágrima que desce do rosto, denunciadora do meu temperamento introspectivo. O lado de lá reflete um outro cenário, pleno de atores circenses: drama e comicidade convergem para um mesmo espetáculo. E as cortinas estão sempre abertas para uma plateia anônima — as máscaras reinam. Do lado de cá, o rosto desnudo se mostra ao espelho. Não adianta esconder as rugas visíveis, tanto quanto a expressão de desencanto diante de esdrúxulas contradições.
            Sou ambígua, carrego oposições, faço questão de construir-me “entre” alguma coisa. Sou “entre”. Será que estou enganada? Nunca duvidei das incertezas que me alimentam. Sei pouco e sou pouco, isso me basta. Opto pela humildade dos anacoretas em contraste com a arrogância dos poderosos. Somos tão pequeninos que poucos se satisfazem com a moderada ambição; querem alcançar o pico da montanha sem antes escalá-la. No Brasil, a ânsia de poder atinge níveis incalculáveis: mente-se, tripudia-se, engana-se, contanto que o suposto domínio sobre os outros venha a prevalecer. O humanismo desce ladeira abaixo, conceito desgastado, fora de época, ridículo. Importa esmagar o outro, exaltar o status, enaltecer falsas competências: tudo isso em nome das ressonâncias sociais que bajulam os mais fortes e esbofeteiam os mais fracos. O Brasil carece de decência, do mínimo de vergonha, de posturas corajosas e dignificantes.
            Triste do homem que não é capaz de existir por inteiro, que se deixa fragmentar sob o jugo de um poder assentado no favorecimento. Nada melhor que a metáfora de Drummond para exprimir um sentimento complexo e quase sempre tripudiado: “Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara./Sem uso,/ela nos espia do aparador”. E mais adiante revela: “Este é tempo de partido,/tempo de homens partidos./Em vão percorremos volumes,/viajamos e nos colorimos./A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua./Os homens pedem carne./Fogo./ Sapatos./As leis não bastam./ Os lírios não nascem/ da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se/ na pedra”.
            Homens partidos não conclamam a paz, destroem-se em inúteis retalhos. Amam o poder acima de todas as coisas, porque são tão efêmeros que não têm tempo de se perceberem humanos. Os relógios parados continuam girando para aqueles que entendem a vida na sua finitude. Homens partidos nada edificam, servem apenas para fomentar a discórdia, dilatar a própria raiva no seu ego minguado, homens sem norte, apoiados em pedestais de papelão. Ao mínimo descuido, tombarão do seu último degrau. Homens partidos fenecem precocemente e em pó hão de desaparecer.
            Os poetas não calam, os seus símbolos são mais fortes, transcendem a miséria do poder, para alçar a eternidade das palavras — tão somente das palavras. A única eternidade possível. Tudo mais é passageiro e miúdo. O poeta pereniza-se na ênfase do dito. O seu poder se crava na alma até daqueles mais insensíveis.
            E todas essas conexões me chegaram livremente. Ou talvez dos versos de Drummond: “O bonde passa cheio de pernas:/pernas brancas pretas amarelas./Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração./Porém meus olhos/não perguntam nada”.
            Continuo na varanda, esmagada por um Brasil agonizante. E peço licença a mais um poeta, Daniel Lima: “Sufocarei se não gritar agora./Deixa, Senhor, que eu blasfeme/na danação desta hora./Preciso ser maldito/para sentir-me salvo./Se permitires que eu blasfeme agora,/verás, Senhor, que essa blasfêmia/é apenas/um jeito de oração de amor magoado”.
Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras, E-mail:fquintas84@terra.com.br