sábado, 27 de maio de 2017

A avó paterna



Minha avó paterna, Laura Pacheco Quintas, costumava dizer: “Boa romaria faz quem na sua casa está em paz”. E de tanto repetir a frase, absorveu-a de tal maneira que cumpriu na íntegra a sua mensagem. Raramente saía. Ou melhor: só saía para ir ao médico. Dias, meses, anos, a avó Laura se refugiava no claustro doméstico. Falava muito, reclamava da modernidade à época, vigiava os vizinhos com assídua atenção;era uma mulher voltada para a monotonia dos hábitos. O mundo reduzia-se à sua casa conjugada, de vila, em Casa Amarela. Arguia-se de uma enorme dificuldade de externar sentimentos — monocórdia na dinâmica familiar. Aliás, uma dinâmica que se reprisava todos os dias, sem surpresas ou novidades, salvo os acontecimentos imponderáveis;não me lembro de comemorações, tampouco de dias incomuns, o cotidiano ali se repetia como um disco de vinil arranhado, cuja agulha não muda de faixa.
            Não fora o avô paterno, Gabriel Soares Quintas, personalidade extremamente original, a estrutura doméstica se quedaria em algo tão linear que só a morte poderia rachar o bloco granítico. E assim foi. A avó avocou-se de um domínio férreo: nada de variações, os costumes perpetravam liturgias eternizadas.O dia começava com o canto do galo.Auroras não traziam prenúncios de novas horas; sim a continuação de um tempo estático, onde somente o relógio, o belo relógio tipo oito, massacrava os ouvidos, badalando de quinze em quinze minutos, como se a cronologia anunciasse a finitude nos seus quartos de hora. Representava um som tumular do qual nunca consegui me livrar. Lembro-me que quando lá chegava pedia para desligá-lo. O avô tentava, mas acabava por me convencer a aceitar o rimbombo tonitruante; surdo, completamente surdo, não o abalavam os sons externos; seus ruídos emergiam de dentro.
            E a avó Laura reverberava as mesmas frases, os mesmos monólogos, as mesmas reclamações: rosto redondo, cabelos ralos, lisos, lábios finos, estatura baixa, mãos pequeninas, amava as percussões ritmadas; não gostava de ler, não gostava de cozinhar, não gostava de arrumar a casa, não gostava de ouvir rádio, não gostava de música; ela, a avó, deleitava-se com a vida congelada. Os aposentos da pequena casa distribuíam-se entre duas salas e três quartos, uma cozinha mínima, dependência de empregada e um modesto jardim, que logo foi acimentado para poupar serviços a mais. Um jardim acimentado..., assim como a casa, estagnada em anódinos murmúrios..., assim como o vazio de emoções.
            Às onze horas em ponto, o almoço à mesa, toalha branca de damasco, louça simples, talheres comuns. A refeição transcorria em silêncio. A tarde, quase sempre morna, denunciava um ir e vir pelos aposentos. E “à las cinco de la tarde”, à Federico García Lorca, a ceia posta: leite, café, pão, queijo e chá de camomila. E o relógio, anunciando a passagem do tempo.    
            Ao cair do crepúsculo, os postigos da porta da frente se abriam discretamente — minha avó ia assuntar a rua; tomava conta do mundo pelas brechas daquela porta quase sagrada, por simbolizar um meio de enxergar para além da imobilidade interna.
            Relógio a tiquetaquear vinte horas, momento em que a avó Laura se deitava — ar petrificado, quietude imposta, paralisia dos móveis. O avô Gabriel, com seu jeito transgressor, lia à luz do abajur. Chamava-me para perto dele. E a vida então começava sob o embalo dos quartos de hora.




A literatura é um jogo



O homem conformado com o mundo não está pronto para escrever. A resignação paralisa, impede qualquer movimento. É preciso um mínimo de inquietação para deixar-se explodir em desabafos. As entrelinhas de uma escrita, com silêncios prolongados, fantasmas implícitos, ocultas sugestões, derrapam em um cenário que se modula à maneira de cada um. Não há como fugir desse jogo tão instigante que se chama literatura. Tudo isso me vem à mente a partir do excelente tema, rico de complexidade e beleza, escolhido pela Fliporto 2013: “A Literatura é um jogo”. Assim como a vida também o é. Quantas vezes a vida surpreende mais que a literatura? Somos reféns de um destino ignorado:“duelo” que se faz intrigante na medida em que bifurca o placar — vitoriosos ou derrotados. Destino é uma palavra perigosa, implica em tantas conotações que tenho receio de usá-la. Mas ela existe e aponta inúmeros caminhos que confundem a escolha. Nem sempre temos consciência de qual jogo jogar. Então, a literatura abriga os desassossegados, os apreensivos, os impacientes — embate a exigir emoções e sentimentos.
E a disputa se inicia quando o “eu” agrupa vários “eus” em uma partida nem sempre harmoniosa. O conflito dá ensejo à roleta do pensamento. Refletir decorre de uma dúvida atormentante. A inspiração corresponde à pulsão de vida; sem ela o desejo desaparece e o abismo do vazio aflora. Nem sempre estamos inspirados para preencher uma folha de papel em branco, mas aliados, sim, à máquina propulsora de evocações;são as reminiscências, mexidas e remexidas, que tecem o sonho, ressignificando-o em símbolos e metáforas. O jogo resulta dos próprios desencontros. E o tempo é a matéria prima desse jogo. 
            Escrever é desabrochar-se em signos, utilizando a palavra como meio libertador. O drama humano reclama por portas de saída. A angústia favorece a compreensão da existência, delegando à literatura o ato de exorcizar as agruras da alma. Há uma voz que fala através da letra: as exclamações despontam;as interrogações, também. E tudo parece desaguar numa pergunta que jamais será respondida. Impossível decifrar o mistério da existência! Que os vulcões interiores entrem em erupção; somente assim a humanidade poderá caminhar na direção do incognoscível. Cada palavra desenhada expressa o que lá de dentro emerge, dando forma a uma peleja que convive com o ontológico. A literatura é feita de flashes da vida;por efeito, como fugir desse embate constante e imprevisível? O jogo persiste.
            No túnel do dizer, a cronologia tem forte representação. Lembranças de infância acorrem como se a nossa história retornasse ao passado, tempo realmente sólido que nos fortalece. Joaquim Nabuco já afirmava que a infância é a fonte da nossa ebulição. E Proust construiu sua obra em base de memórias aparentemente perdidas, porém reencontradas. A memória consiste no fermento da escrita; dela brota o processo criativo. Sem receio de errar, oferto à memória o elemento desencadeador de toda narrativa. Impossível imaginar que semeamos do nada. As anterioridades, já advertia Ernesto Sabato, são transbordamentos de um eu-vivente. A memória tem o poder cumulativo, nela agregam-se várias caixinhas, umas mais recentes, outras distanciadas, além daquelas arcaicas. A soma dos séculos que em mim habitam provoca um redemoinho de épocas que servem de alento ao ato de devanear. O encadeamento acontece tal qual elo de sustentação. E a batalha pede armistício, reivindica a paz que deriva do fenômeno da palavra.
            A Literatura é um jogo entre o homem, o tempo, a memória e a existência. Um jogo que tem árbitro implacável e regras nem sempre conhecidas. Não adianta camuflar as pedras da contenda, porque prevalecerá sempre a contingência do humano. Continuar em pleno jogo é a única forma de entender a literatura.

                       



Viagem de Táxi


Entrei no táxi, um carro de tamanho médio, não conferi a marca; de pronto, o espaço interno me chamou a atenção. No chão, pequenos tapetes de cores diferentes, nos assentos e encostos, mantas verdes distribuídas ordenadamente, além de variados pôsteres do Coração de Jesus e de Nossa Senhora da Conceição.  A decoração transmitia um misto de fé e de mau gosto, cenário sem a mínima harmonia estética. O chofer assumiu a direção — gordo, falante, dionisíaco. Deu-me um largo bom-dia, o cabelo preto, liso e sedoso, modelava o rosto, sobrancelhas grossas, lábios polpudos, face rosada, a imagem projetava um temperamento extrovertido, pulsante. Sentei-me e ouvi um convicto monólogo: “Sou um homem que acredita em Deus, nos santos, nas ordens do céu. Trabalho com prazer, conheço ruas, avenidas, praças e tenho a certeza de que vou para o paraíso celestial. Nada é feito sem o comando do lado de lá. Não há razão de infelicidades; basta acreditar na glória divina”. 
Surpresa com tantas divagações, perguntei: “Desde quando o senhor é taxista?” Ele virou o rosto e fitou-me: “Sou formado em Direito, empreguei-me numa média empresa, mas a monotonia do trabalho e o salário baixo levaram-me a pensar em outra profissão. Então decidi fazer alguma coisa mais dinâmica, que tivesse contato direto com as pessoas; gosto de gente, de conversar, de conhecer o mundo através das ideias do outro. Aqui eu convivo com rostos diversos, do mais eloquente ao mais humilde. Neste carro transitam ateus, católicos, evangélicos... Sabe, doutora, a religião condiciona o comportamento humano. A razão e a emoção dependem da estrutura de cada um; todos os indivíduos são enriquecidos por um aprendizado diário. A religião é a base, mas não somente; a educação tem valor imprescindível. E o nosso país carece de elementos de origem. Daí o caos em que mergulhou”.
Saí do carro um tanto atordoada. Havia um claro descompasso entre a estética, a religião e a existência. Em tão pouco tempo, não fui capaz de discernir os hiatos predominantes. De qualquer forma, constatei mais uma vez, a complexidade inerente ao ser humano. E o taxista se foi, perfilando o mistério de cada um.
Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras. E—mail: fquintas84@terra.com.br       


Zonza-zonza


O mundo gira ao meu redor. Estou zonza. Não sou, entretanto, o epicentro de um mandala em cuja construção sequer colaborei –  esse rabisco geográfico que se chama espaço elaboraram-no por mim. Vejo o que é concreto, mas enxergo com mais profundidade o abstrato, o invisível, as entrelinhas. A obviedade me fatiga, não me seduzem as conclusões aligeiradas, fruto de óbvias inferências. Os revestimentos artificiais não resistem à ação da menor ventania. Qualquer aragem supostamente rebelde poderá esgarçar o modelo da circunferência. Disseram-me, ainda pequenina, que o universo é redondo, daí o excesso de zonzeira que me acode. Ao lado dos códigos irrefutáveis, descubro o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: “As cousas não têm significação – têm existência./ As cousas são o único sentido oculto das cousas.”
Vale o que sinto, não o que apalpo. Capto o inexistente. Não estou presa ao círculo sensorial, nem comungo dos ensinamentos dogmáticos. Exaurem-me as ideias concebidas sob severas precisões. A minha humanidade rejeita qualquer verbo conjugado no imperativo. Esqueço os mandamentos que um dia me subjugaram ao receituário da perfeição, vou além, abandono as virtudes inodoras e incolores...  Quantas vezes andei sobre pedregulhos? Vivo o minuto, cada um, não traço planos para o instante que se segue; ele já passou,  nada fiz, deixei-o ao largo, um tanto à deriva — eu própria navego em um barco adernado. Voltarei à proa. Careço da imensidão dos horizontes, dos portos inatingíveis, de tudo que me leve ao desatino do sonho. Busco a volatilidade da criação e as miragens arquetípicas...  “Meus sonhos têm asas/ e saem do mar”.
Tenho lápis e papel. Faltam-me, contudo, palavras. Tento juntá-las, mas os sons não se harmonizam, há sílabas a mais e imaginação a menos. Não me conformo com essa infertilidade, necessito expandir os limites do mundo ou reinventá-los à luz da libertação. Serei capaz de ultrapassar as fronteiras que me embargaram, ou a minha infante aventura é de tamanho diminuto?  A folha de papel, antes tão larga e desértica, nela não fui capaz de escrevinhar o nome desejo. E, em meio a eufemismos, escapo valentemente do parágrafo por concluir. Se neguei-me o direito da espontaneidade, pelos menos assumo a consciência da incompletude. 
Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras. Email: fquintas84@terra.com.br

sexta-feira, 3 de março de 2017

ÁLBUM DE FAMÍLIA

                                               

          
Os retratos me tocam.Chego a ter uma certa devoção pelos álbuns de família. Vejo-os não somente com os olhos, mas com todos os sentidos. As mãos apalpam rostos que não conheci; o olfato aspira a perfumes antigos que me inebriam; ouço vozes calorosas de tios, tias, avôs, avós, bisavós, bisavôs, parentes distantes com histórias belíssimas a contar. Fortuna de lembranças;relicário sagrado;tesouro de mim mesma.
            Pensar que os álbuns de família estavam sempre expostos à mesa da sala de estar nos tempos patriarcais e semipatriarcais! Todos a eles se achegavam, sortilégio que não faltava em nenhuma casa-grande. De pronto, os entes queridos ganhavam o timbre da eternidade. Assim, passei a conhecer muito alémdaquilo que pude assistir.  
            Se um dia o rosto existiu, por que não amá-lo através do esboço retratado? Sou uma privilegiada. Cruzo caminhos que conduzem aimaginação para outras vivências. E mais ainda: as histórias que irrompem dos retratos são histórias verdadeiras, retiradas de documentos fidedignos, garimpadas em velhos papéis, cheios de bolor, porém, capazes de oferecer detalhes mais cativantes que qualquer enredo ficcional. O que é a vida senão uma tentativa de copiar desejos espalhados em lugares anônimos, enigmáticos, ainda que tão próximos? Qualquer narrativa se constrói à guisa da soma de tempos que sequer consigo abstrair num conjunto fechado. Convivo com o que foi, nem por isso me sinto mais vulnerável pelo calendário extinto. O passado é mais consistente do que a efemeridade do instante. Existiu efetivamente e me permite debulhá-lo à minha maneira. Os contornos mudam nas reviviscências. A depender do meu estado de espírito, lanço a isca em alto mar ou retraio o anzol com medo da tempestade. Não preciso de grandes tormentas. As ondas mais altas são suficientes, em alguns momentos, para me assustarem, fazendo-me recuar na roda dos desafios.  
            Passo as páginas, uma a uma, do álbum sempre amado. O retrato me comunica planos evocativos: penteados, roupas, adornos,chapéus elegantes; portes aristocráticos, vestidos colados, sobrancelhas grossas, mais adiante adelgaçadas; blusas com babados, mangas compridas, decotes ousados em traje de gala; veludos, organzas, saías plissadas, algumas godês, outras levemente ajustadas, a alongar o corpo; paletós bem cortados, bengalas, bigodes, barbas zeladas com esmero, pince-nez; crianças, homens, mulheres...
            A textura em preto e branco explode. A imagem é bem mais forte que o simples papel. E há o implícito revelando-se devagar: toco na pele, na carne, na alma da gente que fala, que afaga, que repreende, que acarinha, que repassa liturgiasjá enevoadas.  Nada falta neste banquete nostálgico. Ele é tão meu que confesso a vontade incontrolável de preservá-lo, de retê-lo egoisticamente.Trago o pudor de quem sabe avaliar o inventário da vida. Eis-me diante do espetáculo dos que me aplaudiram em mera transcendência geracional. Os rostos me sacolejam. Os minutos exalam sentimentos de perda. Mas, o que seria de mim sem essa felicidade que tanto vivi? A saudade de hoje só tem razão de ser pela felicidade de ontem. Aliás, só conheço uma ou outra porque deixei de tê-las algum dia. A plenitude da presença impõe emoções irreversíveis, lá adiante, quando o vazio se instala.
            O tempo repousa plácido nas minhas mãos. Deixo-me observar pelos olhos dos que me veem. Os risos e as lágrimas apegam-se à memória como se a exposição de faces saltasse das páginas que já não são páginas, mas pedaços de mim. Não sei onde começa o presente e nem onde termina o passado. Ainda bem que tenho a vivaz consciência do ser, eu, todos os tempos em um mesmo tempo.
            O álbum de família permanece aberto. Minhas mãos tremem. Vejo e vivo sentimentos que são heranças imemoriais de uma história que, seguramente, é a minha própria história.


Fátima Quintas é membro da Academia Pernambucana de Letras. E-mail: fquintas84@terra.com.br