quarta-feira, 24 de junho de 2020


CANSAÇOS, CANSAÇO
Fátima Quintas
Meu choro é contido; as emoções, também. As pernas denunciam a fadiga dos que andaram em estradas duvidosas: de barro, de areia, de massapê, de mato. Quantas léguas percorridas!... Protejo-me não me fazendo enxergar por ninguém. Assim escondo os infindáveis cansaços. Para que alardeá-los se não há quem possa socorrer-me? Agarro-me ao salvo-conduto que me garante o combate à artilharia cotidiana. Não almejo riquezas nem falsas exterioridades. Desprezo os excessos, os adereços ornamentais, as miçangas de brilho aparente. Insisto em garimpar diamantes em cestos vazados. “Meus pés vão pisando a terra/ que é a imagem da minha vida:/  tão vazia, mas tão bela,/ tão certa, mas tão perdida”.
Sou amante dos crepúsculos e das sombras enluaradas. “Eu ando sozinha/ ao longo da noite./Mas a estrela é minha”.  Para além do que vejo, debruço-me nas invenções que eu própria fabrico. Não tenho limites para imaginar. Ganho asas poderosas no vôo das fabulações. Serei tão etérea que não me desenho? Não faz mal. A invisibilidade tem as suas vantagens, metamorfoseia-me em varinhas de condão com capacidade de revolucionar as cercanias. Sinto-me feliz porque pássaro errante, migrando para plagas de endereços incertos por entre um céu azul e um galope quixotesco.  De longe, conhecer-me-ei melhor. Mas estou cansada. Tão cansada que acabo me fixando no mesmo lugar. As asas me podaram, já não posso alçar os delírios da juventude.  
 A lama oleosa se agarra aos pés, invadindo-me o medo de derrapar no vácuo. Mesmo que me sinta oca, sem linhas de interseção que preencham os instantes dos dias e das noites, ouso declarar em alto brado a minha vulnerabilidade.  Peço licença para falar. Mas que direi?  E a quem? Tudo já foi verbalizado, receio a ênfase na recorrência. Desconfio das exatidões dos silogismos. Opto por testemunhar-me tão-somente uma miragem: vez em quando relaxo a guarda e traço-me em esboço. A consciência de saber-me frágil fortalece os impulsos de acreditar em você. Mas estou cansada e as forças me impedem de ir à luta. Quero apenas amá-lo em solidão: um amor estranho e impossível. “Dói não poder dar mais,/ e amor que sobra dói,/ mas é amor, nunca se estraga”. Aqui estou eu, pronta, quase imolada no ato da entrega, à mercê da loucura que me habita. E ainda desafio os moinhos de vento para balançar o seu coração — tão petrificado em rochas de quartzo. Por que tudo isso? Até quando resistirei à íngreme escalada? O cansaço é maior do que eu mesma.
Desde o primeiro beijo ganhei a imortalidade... quem negará a verdade dessa frase? Peço mais. Muito mais. Essa volúpia insaciável me arruinará. Estarei sozinha na tempestade dos desejos? Quem a mim se aliará na prece confessional? Segredar é difícil, sobretudo no momento em que a humanidade procura, a qualquer custo, dissimular as fraquezas. Todos são vitoriosos, somente eu contabilizo batalhas perdidas. A soma aglutina colunas e mais colunas num inventário conturbado. Viro a página para começar de novo. Puro engano. Tento convencer-me que a vida é aqui e agora. Na primeira linha, assinarei a ousadia de chegar até você. Mas continuo tão cansada!...
 O meu tempo se gasta na procura das suas mãos. Chego a pensar que a vida é um barco abandonado e que o mundo corresponde a uma ilusão ótica, um distúrbio visual que me força a compreender o incognoscível. Ocupo-me dos sentimentos, não me sobram vagares para supérfluas diligências. Os outros como me imaginarão? “Quanto mais ando ocupada,/ mais alto o canto suspendo./ Por isso, quem não está vendo,/ pensa que não faço nada”. Levo a vida inflando a alma. De afeto. Ninguém suspeita das minhas intenções. Amar nunca deu lucro. Sou pobre, paupérrima de artificialidades.
Quero o abraço, o beijo, o toque. Tudo mais me é dispensável. Contento-me com pouco. Que nada! A minha ambição não se apalpa. Pura abstração num circo de ilusões. Sou uma trapezista em cima de fios prestes a rebentar. Não há rede de proteção. Mas o perigo me atrai. Jogo-me ao ar. Um tanto às cegas.  Estou tão cansada que nem o gesto de liberdade me serve.
Aceito a hesitação de um Ser indefeso, em carência existencial. 

Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras. E-mail: fquintas85@terra.com.br
   
     


sábado, 10 de junho de 2017

INDECISÃO


                                        Passara... o momento. Atravessou com atenção. As ruas se entrecortavam e nem havia sinal de trânsito. A tarde brumosa, pálida, sem luz, a atmosfera se acanhava por entre os olhos de Maria Clarissa. Que imaginava ela? Todos os dias, à mesma hora, circundava aquele caminho, já tão seu conhecido. O ato mecânico — de anos repetidos —, quantas vezes a confundiu na acídia do não pensar? Então ia e vinha sem dar conta de si. Melhor assim. Quando o corpo comanda a prática do agir e anula possíveis divagações, a mente se esvai na inutilidade do nada. Priscila, sua neta, saía da escola às 17h30 e o percurso cotidianamente trilhado lhe era por demais familiar.
                                        Avistou a vizinha, cumprimentou-a. Estava entediada para falar com alguém, não se animava a manter qualquer tipo de conversação. Adiantou o passo para  evitar perguntas descabidas; o aceno de mão parecia-lhe suficiente no cumprimento das regras de etiqueta. E depois... não tinha por que demorar-se com vazias elucubrações. Na parada de ônibus, um casal de namorados brigava, ele se amuava, ela repisava a mesma frase. “Eu te amo”. Nada mais. Maria Clarissa procurou entender o silêncio do rapaz, olhou-o com zelo maternal, doía-lhe o sentimento de perda, o amor rondava o nebuloso espaço. O mundo a sobressaltava com truculentas significações e, no meio da estrada, havia tantas ruelas indicativas que a menor escolha se tornava embaraçosa. As encruzilhadas amedrontam, os escuros se apresentam indefinidos, as indecisões acabam prevalecendo. Deteve a caminhada.
                                        Acompanhou o rosto de alguém sem nome, o do rapaz. Entre o sim e o não, impunha-se a vitória do não. Os cabelos pretos caíam-lhe sobre a testa, a vista baixa se defendia, agora, da acusação da moça; o sussurro da voz feminina declinava longe, longe, inaudível. Quanto mais falava ela, tanto maior o silêncio dele se petrificava, a face contraída. Tez morena, mãos alongadas, o peito sumia num ato de discrição. O rubor o afogueava, sem abalar a seriedade da fisionomia. De repente, Maria Clarissa desejou interferir no descompasso do afeto. Os seus cinquenta e dois anos davam-lhe o direito de atuar com suposta autoridade. É bem verdade que os precoces cabelos brancos – ah! há quanto tempo não os pintava?!— acrescentavam idade, o que a favorecia na posição de interlocutora. De qualquer forma, indagou-se: Por que o abandono de si? Qual o motivo do abatimento? Desde quando não se embelezava? Tinha sido uma mulher bonita, alta, esguia, o porte a combinar com a personalidade forte.  Desistira de viver? Afastou os pessimismos, não queria se molestar com perguntas à toa.
                                        A moça se agitava; ele, o rapaz, investia-se de uma tristeza a beirar o imobilismo. O peso lhe era insuportável, qualquer palavra poderia estornar o sentimento ainda vivo. Maria Clarissa recuou o impulso e desistiu de qualquer interferência. Não lhe cabia reinventar um outro mundo. E depois, o que teria a dizer? O temor do erro a fez retroceder. Tantas vezes se equivocara! Sim, ninguém mais que ela conhecia os desacertos de encontros malsucedidos. Lutara como uma guerreira. Em vão.
                                        O caminho de volta. Priscila narrava as peripécias da escola. Mostrava-lhe os desenhos, as folhas de papel desordenadamente rascunhadas, as tarefas de casa... Maria Clarissa não escutava som algum. Como se a cena anterior a perseguisse – e os namorados? Queria ainda vê-los, mesmo que o silêncio dele e o monólogo dela se misturassem em mistérios insondáveis. Adiantou as pegadas, Priscila reclamou o açodamento, apetecia-lhe tomar um picolé com um tablete de chocolate. Entrou fugida na padaria. A avó a acompanhou sem disfarçar a aflição. Irritou-se. Aquiesceu.
                                        Alegou afazeres. Precisava retornar. Deixara a ceia por terminar. Apesar dos insistentes apelos de Priscila, não esperou que a garota saboreasse com a devida calma a merenda-extra. Maria Clarissa andava obstinada. Nada a retinha.  Iria ajudar o casal de namorados, decidira num lampejo de segurança. Sequer titubeava diante da frase a ser enunciada com a ênfase definitiva dos mais velhos. Chegou ao ponto do ônibus. Aproximou-se. A fila diminuíra, mas havia gente aguardando o transporte, gente sem rosto, todos iguais, quase fantasmas com imprecisão carnal.
                                        O rapaz, sozinho, cabisbaixo e pensativo, caminhava na calçada oposta. Era o fim ou o começo de um mesmo amor?

            


terça-feira, 30 de maio de 2017

A Passagem das Horas



Todos os dias, repriso os mesmos rituais: alguns mecanicamente; outros com a consciência viva do que estou fazendo. Acordo, descerro a cortina, vejo a natureza, enxergo os detalhes do dia através das robustas árvores que desfilam à minha frente. A mangueira me parece tão familiar que converso com ela como uma cúmplice que me acompanha ao longo do dia. Não gosto de levantar-me bruscamente, preciso da sagrada liturgia. Por temperamento, entrego-me ao cerne das coisas; não me apraz a superficial externalidade. Existo devagar.
            Ao embalo de um despertar moroso, os momentos matutinos acontecem, tendo o sol ou a chuva a comandar a atmosfera. O sol me agride com o seu excesso de luz; o céu nublado me acolhe na semi penumbra do afago.
São nove horas: leio um livro, assinalo frases, telefono para amigos, dirijo-me ao computador, penso no que quero escrever, escrevo, não escrevo, sigo os momentos sequenciados com a cautela dos que temem possíveis imprudências. A par disso, os ponteiros continuam girando no avanço inexorável. De repente, o minuto passou, foi-se sem a minha permissão. Afoita, eu. Desde quando controlo essa ciranda permanente? Estou sempre a meio de alguma estrada porque as conclusões me incomodam, desejo ir sem limites, há pensamentos que me seguem, o ponto e vírgula me agrada, adiante, adiante, uma pausa apenas, por favor. Vigio o relógio. Ainda tenho tempo para acrescentar mais uma frase no texto. 
            Meio-dia. O que representa a metade do dia? Ah! se eu soubesse mensurar a cronologia irreversível! Vou e volto no corredor, mas a mesa está posta para o almoço, é hora da reunião em família. Gosto de ouvir os comentários em torno do banquete faustoso. Risos, alegria, uma pitada irônica, ilações diversas...
            A tarde se aproxima numa prolongada louvação ao crepúsculo. Há um corre-corre que a torna mais rápida e turbulenta. O mundo gira em velozes partituras, a pós-modernidade acelera o ritmo, a difusão dos fenômenos se instala.O frenesi distorce a dimensão reflexiva do mundo. O crepúsculo se inicia, o céu se faz em sombras, já é noite.
            Brusco, num piscar de olhos, a natureza tropical dá lugar à presença da lua — são 18 horas. O compasso entre o dia e a noite parece regido por uma sinfonia bem orquestrada ou talvez a noite brigue com o dia para logo assumir-se em plenitude. E cedo chega. De inverno a verão; minutos a mais, minutos a menos. Mas o dia é guloso nos seus fachos luminosos. Exibe-se tal qual espetáculo histriônico, enquanto a noite se esconde por entre fantasmas apaziguadores.
            Chego em casa, olho a mangueira, recupero a quietude, janto frugalmente, recolho-me. No claustro do meu gabinete, renovo a meditação da vida. Sento-me na poltrona para inventariar o dia — hábito que nunca me largou. São 20 horas: recolho os retalhos de mim em sossego. As máscaras impostas, a multiplicidades dos eus, as várias cenas ficaram para trás. Fui tantas em um só dia que chego algumas vezes a orgulhar-me do talento do meu personagem.
  Meia-noite, o relógio a tiquetaquear — respiro fundo e assalta-me o vazio da inutilidade de uma jornada sem nome. Então lembro o poeta Daniel Lima e me refaço da passagem das horas: “Nada será jogado no vazio./Nem mesmo o vazio da vida,/porque é vida./Nem mesmo o gesto inútil,/pois—que é gesto,/Nem mesmo o que não chegou a realizar-se,/pois—que é possível./Nem mesmo ainda o que jamais se realizará,/porque é promessa./E o próprio impossível/é vontade absurda de existir./ E nisso existe.”
           

           


sábado, 27 de maio de 2017

Velas e Velas



                              Mesmo na noite densa e escura, há tochas que me iluminam: castiçais acesos. Olho-os. Velho hábito que me acompanha desde a adolescência. As chamas me fascinam por incitar o bulício interior de destroços já em ruínas. O fogo me convida a intensas mutações. Em fervorosa doação, entrego-me ao calor excitante. Esqueço o tempo, o espaço, sou apenas um pensamento vazio. Consigo elevar-me às dimensões etéreas do nada. Então, alcanço o paroxismo da interioridade. E ao badalar da meia-noite, quando todos dormem e o mundo parece estagnado na circunferência do sono, eu elaboro a existência.
                              As velas choram. A sua essência repousa entre a alegria e a tristeza, entre o sim e o não, entre o dia e a noite. O fogo sugere êxtases gloriosos, as lágrimas decantam apelos soterrados.  Ao longo do cilindro de cera, os pingos vão se acumulando até formarem indecifráveis estalactites. Do pequeno choro às cataratas do espírito, o ritual tem começo e fim, semelhanças e diferenças, compassos e descompassos. Espio a vela, a vela me espia.  A proximidade se faz tão amiúde que a vela fala por mim. Uma interação silenciosa, firmada na simbiose da cumplicidade.
                              Sou adepta da cerimônia das velas. No vácuo da noite, entre a vigília e o sono, acendo-as com a avidez de quem se posta em uníssona oração.  O pavio virgem, as mãos em lenta gesticulação, o fósforo riscado estimulam-me diante da cena. O ritual dos castiçais me convoca à consagração dos desejos. Por enquanto, devoro apenas com ritmo paciente o choro das velas. Ao redor da chama, uma aura indecifrada. Do vermelho matizado à própria fumaça que se espraia sobre a retangular mesa de jacarandá, não se instalam hiatos entre o calor da vela e o frio do choro.  Não estou a meio, estou no mimetismo dos heráldicos castiçais. Tenho receio de que alguém me leia, afinal, o meu sussurro é recôndito, quero-o para dentro, bem guardado nos solipsismos do coração.
                              As inquietações não cessam, mas a vela se apaga ou queima até a derradeira possibilidade de exibir-se. Lentamente se vai. Um adeus devagar, discreto, mudo, mas finito.  Resta um belo quadro de lágrimas à sombra dos estalactites em desenho abstrato, difuso, assimétrico. O escuro se agiganta. O ritual termina. Serei eu a única a celebrar a cerimônia do fogo e da lágrima?



                                                                                                      

A avó paterna



Minha avó paterna, Laura Pacheco Quintas, costumava dizer: “Boa romaria faz quem na sua casa está em paz”. E de tanto repetir a frase, absorveu-a de tal maneira que cumpriu na íntegra a sua mensagem. Raramente saía. Ou melhor: só saía para ir ao médico. Dias, meses, anos, a avó Laura se refugiava no claustro doméstico. Falava muito, reclamava da modernidade à época, vigiava os vizinhos com assídua atenção;era uma mulher voltada para a monotonia dos hábitos. O mundo reduzia-se à sua casa conjugada, de vila, em Casa Amarela. Arguia-se de uma enorme dificuldade de externar sentimentos — monocórdia na dinâmica familiar. Aliás, uma dinâmica que se reprisava todos os dias, sem surpresas ou novidades, salvo os acontecimentos imponderáveis;não me lembro de comemorações, tampouco de dias incomuns, o cotidiano ali se repetia como um disco de vinil arranhado, cuja agulha não muda de faixa.
            Não fora o avô paterno, Gabriel Soares Quintas, personalidade extremamente original, a estrutura doméstica se quedaria em algo tão linear que só a morte poderia rachar o bloco granítico. E assim foi. A avó avocou-se de um domínio férreo: nada de variações, os costumes perpetravam liturgias eternizadas.O dia começava com o canto do galo.Auroras não traziam prenúncios de novas horas; sim a continuação de um tempo estático, onde somente o relógio, o belo relógio tipo oito, massacrava os ouvidos, badalando de quinze em quinze minutos, como se a cronologia anunciasse a finitude nos seus quartos de hora. Representava um som tumular do qual nunca consegui me livrar. Lembro-me que quando lá chegava pedia para desligá-lo. O avô tentava, mas acabava por me convencer a aceitar o rimbombo tonitruante; surdo, completamente surdo, não o abalavam os sons externos; seus ruídos emergiam de dentro.
            E a avó Laura reverberava as mesmas frases, os mesmos monólogos, as mesmas reclamações: rosto redondo, cabelos ralos, lisos, lábios finos, estatura baixa, mãos pequeninas, amava as percussões ritmadas; não gostava de ler, não gostava de cozinhar, não gostava de arrumar a casa, não gostava de ouvir rádio, não gostava de música; ela, a avó, deleitava-se com a vida congelada. Os aposentos da pequena casa distribuíam-se entre duas salas e três quartos, uma cozinha mínima, dependência de empregada e um modesto jardim, que logo foi acimentado para poupar serviços a mais. Um jardim acimentado..., assim como a casa, estagnada em anódinos murmúrios..., assim como o vazio de emoções.
            Às onze horas em ponto, o almoço à mesa, toalha branca de damasco, louça simples, talheres comuns. A refeição transcorria em silêncio. A tarde, quase sempre morna, denunciava um ir e vir pelos aposentos. E “à las cinco de la tarde”, à Federico García Lorca, a ceia posta: leite, café, pão, queijo e chá de camomila. E o relógio, anunciando a passagem do tempo.    
            Ao cair do crepúsculo, os postigos da porta da frente se abriam discretamente — minha avó ia assuntar a rua; tomava conta do mundo pelas brechas daquela porta quase sagrada, por simbolizar um meio de enxergar para além da imobilidade interna.
            Relógio a tiquetaquear vinte horas, momento em que a avó Laura se deitava — ar petrificado, quietude imposta, paralisia dos móveis. O avô Gabriel, com seu jeito transgressor, lia à luz do abajur. Chamava-me para perto dele. E a vida então começava sob o embalo dos quartos de hora.




A literatura é um jogo



O homem conformado com o mundo não está pronto para escrever. A resignação paralisa, impede qualquer movimento. É preciso um mínimo de inquietação para deixar-se explodir em desabafos. As entrelinhas de uma escrita, com silêncios prolongados, fantasmas implícitos, ocultas sugestões, derrapam em um cenário que se modula à maneira de cada um. Não há como fugir desse jogo tão instigante que se chama literatura. Tudo isso me vem à mente a partir do excelente tema, rico de complexidade e beleza, escolhido pela Fliporto 2013: “A Literatura é um jogo”. Assim como a vida também o é. Quantas vezes a vida surpreende mais que a literatura? Somos reféns de um destino ignorado:“duelo” que se faz intrigante na medida em que bifurca o placar — vitoriosos ou derrotados. Destino é uma palavra perigosa, implica em tantas conotações que tenho receio de usá-la. Mas ela existe e aponta inúmeros caminhos que confundem a escolha. Nem sempre temos consciência de qual jogo jogar. Então, a literatura abriga os desassossegados, os apreensivos, os impacientes — embate a exigir emoções e sentimentos.
E a disputa se inicia quando o “eu” agrupa vários “eus” em uma partida nem sempre harmoniosa. O conflito dá ensejo à roleta do pensamento. Refletir decorre de uma dúvida atormentante. A inspiração corresponde à pulsão de vida; sem ela o desejo desaparece e o abismo do vazio aflora. Nem sempre estamos inspirados para preencher uma folha de papel em branco, mas aliados, sim, à máquina propulsora de evocações;são as reminiscências, mexidas e remexidas, que tecem o sonho, ressignificando-o em símbolos e metáforas. O jogo resulta dos próprios desencontros. E o tempo é a matéria prima desse jogo. 
            Escrever é desabrochar-se em signos, utilizando a palavra como meio libertador. O drama humano reclama por portas de saída. A angústia favorece a compreensão da existência, delegando à literatura o ato de exorcizar as agruras da alma. Há uma voz que fala através da letra: as exclamações despontam;as interrogações, também. E tudo parece desaguar numa pergunta que jamais será respondida. Impossível decifrar o mistério da existência! Que os vulcões interiores entrem em erupção; somente assim a humanidade poderá caminhar na direção do incognoscível. Cada palavra desenhada expressa o que lá de dentro emerge, dando forma a uma peleja que convive com o ontológico. A literatura é feita de flashes da vida;por efeito, como fugir desse embate constante e imprevisível? O jogo persiste.
            No túnel do dizer, a cronologia tem forte representação. Lembranças de infância acorrem como se a nossa história retornasse ao passado, tempo realmente sólido que nos fortalece. Joaquim Nabuco já afirmava que a infância é a fonte da nossa ebulição. E Proust construiu sua obra em base de memórias aparentemente perdidas, porém reencontradas. A memória consiste no fermento da escrita; dela brota o processo criativo. Sem receio de errar, oferto à memória o elemento desencadeador de toda narrativa. Impossível imaginar que semeamos do nada. As anterioridades, já advertia Ernesto Sabato, são transbordamentos de um eu-vivente. A memória tem o poder cumulativo, nela agregam-se várias caixinhas, umas mais recentes, outras distanciadas, além daquelas arcaicas. A soma dos séculos que em mim habitam provoca um redemoinho de épocas que servem de alento ao ato de devanear. O encadeamento acontece tal qual elo de sustentação. E a batalha pede armistício, reivindica a paz que deriva do fenômeno da palavra.
            A Literatura é um jogo entre o homem, o tempo, a memória e a existência. Um jogo que tem árbitro implacável e regras nem sempre conhecidas. Não adianta camuflar as pedras da contenda, porque prevalecerá sempre a contingência do humano. Continuar em pleno jogo é a única forma de entender a literatura.

                       



Viagem de Táxi


Entrei no táxi, um carro de tamanho médio, não conferi a marca; de pronto, o espaço interno me chamou a atenção. No chão, pequenos tapetes de cores diferentes, nos assentos e encostos, mantas verdes distribuídas ordenadamente, além de variados pôsteres do Coração de Jesus e de Nossa Senhora da Conceição.  A decoração transmitia um misto de fé e de mau gosto, cenário sem a mínima harmonia estética. O chofer assumiu a direção — gordo, falante, dionisíaco. Deu-me um largo bom-dia, o cabelo preto, liso e sedoso, modelava o rosto, sobrancelhas grossas, lábios polpudos, face rosada, a imagem projetava um temperamento extrovertido, pulsante. Sentei-me e ouvi um convicto monólogo: “Sou um homem que acredita em Deus, nos santos, nas ordens do céu. Trabalho com prazer, conheço ruas, avenidas, praças e tenho a certeza de que vou para o paraíso celestial. Nada é feito sem o comando do lado de lá. Não há razão de infelicidades; basta acreditar na glória divina”. 
Surpresa com tantas divagações, perguntei: “Desde quando o senhor é taxista?” Ele virou o rosto e fitou-me: “Sou formado em Direito, empreguei-me numa média empresa, mas a monotonia do trabalho e o salário baixo levaram-me a pensar em outra profissão. Então decidi fazer alguma coisa mais dinâmica, que tivesse contato direto com as pessoas; gosto de gente, de conversar, de conhecer o mundo através das ideias do outro. Aqui eu convivo com rostos diversos, do mais eloquente ao mais humilde. Neste carro transitam ateus, católicos, evangélicos... Sabe, doutora, a religião condiciona o comportamento humano. A razão e a emoção dependem da estrutura de cada um; todos os indivíduos são enriquecidos por um aprendizado diário. A religião é a base, mas não somente; a educação tem valor imprescindível. E o nosso país carece de elementos de origem. Daí o caos em que mergulhou”.
Saí do carro um tanto atordoada. Havia um claro descompasso entre a estética, a religião e a existência. Em tão pouco tempo, não fui capaz de discernir os hiatos predominantes. De qualquer forma, constatei mais uma vez, a complexidade inerente ao ser humano. E o taxista se foi, perfilando o mistério de cada um.
Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras. E—mail: fquintas84@terra.com.br       


Zonza-zonza


O mundo gira ao meu redor. Estou zonza. Não sou, entretanto, o epicentro de um mandala em cuja construção sequer colaborei –  esse rabisco geográfico que se chama espaço elaboraram-no por mim. Vejo o que é concreto, mas enxergo com mais profundidade o abstrato, o invisível, as entrelinhas. A obviedade me fatiga, não me seduzem as conclusões aligeiradas, fruto de óbvias inferências. Os revestimentos artificiais não resistem à ação da menor ventania. Qualquer aragem supostamente rebelde poderá esgarçar o modelo da circunferência. Disseram-me, ainda pequenina, que o universo é redondo, daí o excesso de zonzeira que me acode. Ao lado dos códigos irrefutáveis, descubro o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: “As cousas não têm significação – têm existência./ As cousas são o único sentido oculto das cousas.”
Vale o que sinto, não o que apalpo. Capto o inexistente. Não estou presa ao círculo sensorial, nem comungo dos ensinamentos dogmáticos. Exaurem-me as ideias concebidas sob severas precisões. A minha humanidade rejeita qualquer verbo conjugado no imperativo. Esqueço os mandamentos que um dia me subjugaram ao receituário da perfeição, vou além, abandono as virtudes inodoras e incolores...  Quantas vezes andei sobre pedregulhos? Vivo o minuto, cada um, não traço planos para o instante que se segue; ele já passou,  nada fiz, deixei-o ao largo, um tanto à deriva — eu própria navego em um barco adernado. Voltarei à proa. Careço da imensidão dos horizontes, dos portos inatingíveis, de tudo que me leve ao desatino do sonho. Busco a volatilidade da criação e as miragens arquetípicas...  “Meus sonhos têm asas/ e saem do mar”.
Tenho lápis e papel. Faltam-me, contudo, palavras. Tento juntá-las, mas os sons não se harmonizam, há sílabas a mais e imaginação a menos. Não me conformo com essa infertilidade, necessito expandir os limites do mundo ou reinventá-los à luz da libertação. Serei capaz de ultrapassar as fronteiras que me embargaram, ou a minha infante aventura é de tamanho diminuto?  A folha de papel, antes tão larga e desértica, nela não fui capaz de escrevinhar o nome desejo. E, em meio a eufemismos, escapo valentemente do parágrafo por concluir. Se neguei-me o direito da espontaneidade, pelos menos assumo a consciência da incompletude. 
Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras. Email: fquintas84@terra.com.br

sexta-feira, 3 de março de 2017

ÁLBUM DE FAMÍLIA

                                               

          
Os retratos me tocam.Chego a ter uma certa devoção pelos álbuns de família. Vejo-os não somente com os olhos, mas com todos os sentidos. As mãos apalpam rostos que não conheci; o olfato aspira a perfumes antigos que me inebriam; ouço vozes calorosas de tios, tias, avôs, avós, bisavós, bisavôs, parentes distantes com histórias belíssimas a contar. Fortuna de lembranças;relicário sagrado;tesouro de mim mesma.
            Pensar que os álbuns de família estavam sempre expostos à mesa da sala de estar nos tempos patriarcais e semipatriarcais! Todos a eles se achegavam, sortilégio que não faltava em nenhuma casa-grande. De pronto, os entes queridos ganhavam o timbre da eternidade. Assim, passei a conhecer muito alémdaquilo que pude assistir.  
            Se um dia o rosto existiu, por que não amá-lo através do esboço retratado? Sou uma privilegiada. Cruzo caminhos que conduzem aimaginação para outras vivências. E mais ainda: as histórias que irrompem dos retratos são histórias verdadeiras, retiradas de documentos fidedignos, garimpadas em velhos papéis, cheios de bolor, porém, capazes de oferecer detalhes mais cativantes que qualquer enredo ficcional. O que é a vida senão uma tentativa de copiar desejos espalhados em lugares anônimos, enigmáticos, ainda que tão próximos? Qualquer narrativa se constrói à guisa da soma de tempos que sequer consigo abstrair num conjunto fechado. Convivo com o que foi, nem por isso me sinto mais vulnerável pelo calendário extinto. O passado é mais consistente do que a efemeridade do instante. Existiu efetivamente e me permite debulhá-lo à minha maneira. Os contornos mudam nas reviviscências. A depender do meu estado de espírito, lanço a isca em alto mar ou retraio o anzol com medo da tempestade. Não preciso de grandes tormentas. As ondas mais altas são suficientes, em alguns momentos, para me assustarem, fazendo-me recuar na roda dos desafios.  
            Passo as páginas, uma a uma, do álbum sempre amado. O retrato me comunica planos evocativos: penteados, roupas, adornos,chapéus elegantes; portes aristocráticos, vestidos colados, sobrancelhas grossas, mais adiante adelgaçadas; blusas com babados, mangas compridas, decotes ousados em traje de gala; veludos, organzas, saías plissadas, algumas godês, outras levemente ajustadas, a alongar o corpo; paletós bem cortados, bengalas, bigodes, barbas zeladas com esmero, pince-nez; crianças, homens, mulheres...
            A textura em preto e branco explode. A imagem é bem mais forte que o simples papel. E há o implícito revelando-se devagar: toco na pele, na carne, na alma da gente que fala, que afaga, que repreende, que acarinha, que repassa liturgiasjá enevoadas.  Nada falta neste banquete nostálgico. Ele é tão meu que confesso a vontade incontrolável de preservá-lo, de retê-lo egoisticamente.Trago o pudor de quem sabe avaliar o inventário da vida. Eis-me diante do espetáculo dos que me aplaudiram em mera transcendência geracional. Os rostos me sacolejam. Os minutos exalam sentimentos de perda. Mas, o que seria de mim sem essa felicidade que tanto vivi? A saudade de hoje só tem razão de ser pela felicidade de ontem. Aliás, só conheço uma ou outra porque deixei de tê-las algum dia. A plenitude da presença impõe emoções irreversíveis, lá adiante, quando o vazio se instala.
            O tempo repousa plácido nas minhas mãos. Deixo-me observar pelos olhos dos que me veem. Os risos e as lágrimas apegam-se à memória como se a exposição de faces saltasse das páginas que já não são páginas, mas pedaços de mim. Não sei onde começa o presente e nem onde termina o passado. Ainda bem que tenho a vivaz consciência do ser, eu, todos os tempos em um mesmo tempo.
            O álbum de família permanece aberto. Minhas mãos tremem. Vejo e vivo sentimentos que são heranças imemoriais de uma história que, seguramente, é a minha própria história.


Fátima Quintas é membro da Academia Pernambucana de Letras. E-mail: fquintas84@terra.com.br 

A MULHER DA RUA NOVA




“Assim entro em várias casas,/ Através de várias ruas,/ Parando ante várias montras,/ Cumprimentando/Para um lado, para o outro...”
Rua Nova, um dia de semana qualquer. Nem recordo a data. Foi há algum tempo, na época em que as horas não me encurralavam; eu, descompromissada com o relógio,jovem, plena de esperança. O poema de José Régio me conduz a um passeio especial pelo centro do Recife:dezoito anos, cursando faculdade. Naquela tarde, tomei o ônibus sozinha e, sem rumo, desci na Avenida Dantas Barreto. Mês de julho, um tanto chuvoso, ou melhor, atmosfera nublada,ocasião propícia para um deambular sem destino. Mãos vazias, coração palpitando. De quê?
            Tomei a direção da Rua Nova. Transitei-a de ponta a ponta: entrei na Sloper, na Ethan, na Rialto...Cumprimentei pessoas conhecidas. Por fim, decidi visitar a Matriz de Santo Antônio, silenciosa, penumbrada, espécie de claustro, a abraçar um isolamento que não me dizia a que vinha. Sentei-me no longo banco, quase vazio; havia apenas uma mulher, olhando para frente, a rezar com a máxima contrição;sequer deu conta da minha presença. Fitei-a. Depoisolhei o teto, as paredes, o púlpito. A mulher permanecia imóvel.
            Uns trinta anos, cabelos pretos, nariz afilado, corpo magro, porte elegante. Assaltava-a um profundo sentimento de religiosidade; a prece rezada os lábios balbuciavam, ela acreditava no seu rogo. Havia fé no rosto plácido, anônimo. Terço à mão, os dedos “desgranavam” Ave-Marias e Pais-Nossos. Nada a detinha no monólogo sibilante.
            Do lado de fora da igreja, um homem vendia cachorro-quente e alardeava o produto. Outro, em posição oposta, exibia gravatas, bradando a beleza das listras e a qualidade da seda. Italianas. Importadas!!! Preço módico. Mais adiante, uma senhora expunha um balcão de bugigangas; as peças serviam para ornamentar colos ou braços femininos; ninguém hesitaria diante da estética dos colares e pulseiras. O zumzumzum aumentava ao embalo de vozes que barganhavam preços mais em conta.
            A uma distância pequena, o altar da igreja aplaudia a discrição dos que por lá se achegavam. A mulher ao meu lado suspirou por relaxamento. Guardou o terço na bolsa, enxugou uma lágrima, virou o rosto para me enxergar melhor e disse: “Você é tão jovem, mas tem um olhar triste. Não a tristeza que arranha o meu peito, essa não tem cura; é a minha sina. Moro aqui perto em um sobrado antigo, no primeiro andar; levo uma vida insignificante, não vou para lugar algum, trago a solidão a roer a alma. Venho à igreja todos os dias e gosto do burburinho da Rua Nova — os ecos reverberamcomo alimento da minhaexistência. Pela sacada do sobrado, vejo o mundo que se encerra no espaço da pequena rua. Namoros nascem, amantes brigam, homens e mulheres miram as montras, entram e saem das casas comerciais, vigiam-se sem conhecer; então, flertes irrompem e daí... Sou oca de vida; a Rua Nova é o meu refúgio. Frequento a igreja todos os dias, à mesma hora, peço a Deus o sentido do ser, e me basta”.
Gesto repentino, beijou-me a testa; se foi. Não me sobrou um segundo para dizer nada.
            No outro dia, voltei. Nunca mais vi a mulher da Rua Nova.

Fátima Quintas é membro da Academia Pernambucana de Letras.
E-mail:fquintas84@terra.com.br        


quarta-feira, 23 de março de 2016

TEMPO DE HOMENS PARTIDOS



Da varanda do meu prédio, vejo o mundo se agitando. As árvores dos fundos de quintal neutralizam o som dos carros; criam um hiato entre o que se passa do lado de lá e o que se passa do lado de cá — linha divisória a formar um meio círculo, como se o meu mundo se dividisse entre a minha intimidade e a explosão de ruídos que se espalham no espaço público. Entre a casa e a rua existem insondáveis mistérios.
            Tenho dito sempre que gosto do recôndito, daquele cantinho que é meu, das reflexões do quarto de estudo, dos livros que leio e releio, de tudo que diz respeito a minha pessoalidade. Sou um ser latejante de emoções, não receio a lágrima que desce do rosto, denunciadora do meu temperamento introspectivo. O lado de lá reflete um outro cenário, pleno de atores circenses: drama e comicidade convergem para um mesmo espetáculo. E as cortinas estão sempre abertas para uma plateia anônima — as máscaras reinam. Do lado de cá, o rosto desnudo se mostra ao espelho. Não adianta esconder as rugas visíveis, tanto quanto a expressão de desencanto diante de esdrúxulas contradições.
            Sou ambígua, carrego oposições, faço questão de construir-me “entre” alguma coisa. Sou “entre”. Será que estou enganada? Nunca duvidei das incertezas que me alimentam. Sei pouco e sou pouco, isso me basta. Opto pela humildade dos anacoretas em contraste com a arrogância dos poderosos. Somos tão pequeninos que poucos se satisfazem com a moderada ambição; querem alcançar o pico da montanha sem antes escalá-la. No Brasil, a ânsia de poder atinge níveis incalculáveis: mente-se, tripudia-se, engana-se, contanto que o suposto domínio sobre os outros venha a prevalecer. O humanismo desce ladeira abaixo, conceito desgastado, fora de época, ridículo. Importa esmagar o outro, exaltar o status, enaltecer falsas competências: tudo isso em nome das ressonâncias sociais que bajulam os mais fortes e esbofeteiam os mais fracos. O Brasil carece de decência, do mínimo de vergonha, de posturas corajosas e dignificantes.
            Triste do homem que não é capaz de existir por inteiro, que se deixa fragmentar sob o jugo de um poder assentado no favorecimento. Nada melhor que a metáfora de Drummond para exprimir um sentimento complexo e quase sempre tripudiado: “Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara./Sem uso,/ela nos espia do aparador”. E mais adiante revela: “Este é tempo de partido,/tempo de homens partidos./Em vão percorremos volumes,/viajamos e nos colorimos./A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua./Os homens pedem carne./Fogo./ Sapatos./As leis não bastam./ Os lírios não nascem/ da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se/ na pedra”.
            Homens partidos não conclamam a paz, destroem-se em inúteis retalhos. Amam o poder acima de todas as coisas, porque são tão efêmeros que não têm tempo de se perceberem humanos. Os relógios parados continuam girando para aqueles que entendem a vida na sua finitude. Homens partidos nada edificam, servem apenas para fomentar a discórdia, dilatar a própria raiva no seu ego minguado, homens sem norte, apoiados em pedestais de papelão. Ao mínimo descuido, tombarão do seu último degrau. Homens partidos fenecem precocemente e em pó hão de desaparecer.
            Os poetas não calam, os seus símbolos são mais fortes, transcendem a miséria do poder, para alçar a eternidade das palavras — tão somente das palavras. A única eternidade possível. Tudo mais é passageiro e miúdo. O poeta pereniza-se na ênfase do dito. O seu poder se crava na alma até daqueles mais insensíveis.
            E todas essas conexões me chegaram livremente. Ou talvez dos versos de Drummond: “O bonde passa cheio de pernas:/pernas brancas pretas amarelas./Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração./Porém meus olhos/não perguntam nada”.
            Continuo na varanda, esmagada por um Brasil agonizante. E peço licença a mais um poeta, Daniel Lima: “Sufocarei se não gritar agora./Deixa, Senhor, que eu blasfeme/na danação desta hora./Preciso ser maldito/para sentir-me salvo./Se permitires que eu blasfeme agora,/verás, Senhor, que essa blasfêmia/é apenas/um jeito de oração de amor magoado”.
Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras, E-mail:fquintas84@terra.com.br  

             

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

CARTA ABERTA

Escrevo em voz baixa, como se sussurrasse minhas angústias culturais. O momento é de dúvidas e incertezas. Preciso, todavia, falar. Nasci no Recife, nutro pela cidade um amor maternal, vejo as águas do Capibaribe e Beberibe embelezando a paisagem, pontes me fascinam, o ciciar das cigarras me acalanta, o seu jeito tímido e recatado de se mostrar me deslumbra... Mas não posso esquecer o esplêndido patrimônio: o barroco das igrejas, os heráldicos monumentos, a altivez dos casarões. E o abandono cruel em que vivem me aniquila. Então repito tal qual Unamuno: “Recife me duele”. Como entender o desprezo pela nossa arquitetura vernacular?
O que seria da França distante da cultura material? Como amar a Inglaterra sem a dignidade de sua aparência? Como venerar Roma ao largo da riqueza do Renascimento? Se a Europa se ergue sobre o mastro de uma história cultuada, por que ignoramos a nossa biografia em prol de uma modernidade imperativa. Não se pode entender o presente sem retornar ao passado. Há de se construir um equilíbrio que revigore o sentimento de pertença. O homem isolado, ausente das origens, equivale a um expatriado. Não adianta ludibriar as emoções, elas voltam à tona e exigem o mínimo de respeito ao que se chama tradição. Chesterton já dizia que “tradição não quer dizer que os vivos estejam mortos, mas que os mortos estão vivos”.
Pernambuco tem uma história a contar: Revoluções Libertárias, 1817, 1824, 1848, irredentismo a prevalecer, espírito de luta a acirrá-lo na vereda da esperança. Existe uma narrativa a ser zelada, o povo precisa reverenciar o que não conhece. Não me conformo que o poder público ignore as ruínas do patrimônio da cidade. Em nome de quê? Há um lapso que fere a alma, sangrando-a. E a cidade vai decaindo como pássaro ferido em pleno voo de liberdade. “Recife me duele”.
Berço da Civilização do Açúcar, Pernambuco, a notável capitania do século XVI, liderada por Duarte Coelho, atingiu o clímax nos seus primórdios. A arquitetura dos engenhos com suas casas-grandes, capela e moita exerceu função preponderante. Não pretendo delinear uma análise sociológica. O espaço seria pequeno para reunir exegeses. Hoje, peço ao leitor paciência; dedico-me ao patrimônio vernacular. Os grandes Casarões da cidade estão se despedindo em um melancólico adeus. Antes de fenecer, gritam, bradam, pedem socorro... Do outro lado, mora um silêncio que não os escuta. Como entender a situação precária da Academia Pernambucana de Letras, instalada em prédio tombado pelo IPHAN, patrimônio histórico nacional — cuja planta original tem assinatura de engenheiro francês —, estilo neoclássico, provavelmente erguido na primeira metade do século XIX? Como presenciar seus belos azulejos portugueses se deteriorando, lustre francês sem receber tratamento adequado, piso inglês sem os devidos cuidados, todo um precioso conjunto a suplicar por um mínimo de atenção? Dói-me, dói-me muito assistir a debacle lenta e silenciosa do Solar do Barão Rodrigues Mendes, tão louvado no princípio do século XX pelas belas festas nos seus jardins, organizadas por Elvira, Eugênia e Luiza, netas do barão. Como dói!
No momento em que o Brasil vive um período eleitoral, urge invocar aos atuais e futuros dirigentes de Pernambuco um olhar esmerado para os derradeiros Casarões dos séculos XIX e XX que ainda resistem. Sim, resistem, essa é a palavra certa, apesar de esquecidos. São os últimos heróis de um legado quase devastado. Deixá-los à sorte, escorados, sem manutenção, à espera de doações dos homens de alma formada, não corresponde a atos de nobreza. Não. Não posso, não quero admitir que os governantes venham a coonestar a terrível “Crônica de uma morte anunciada” de Gabriel García Márquez. A herança material de Pernambuco não merece tamanho descaso. É hora de repetir o poeta Carlos Pena Filho: “pois é do sonho dos homens/que uma cidade se inventa”. E o sonho já se concretizou na própria história de Pernambuco. Basta conservá-lo. É tão pouco!

Fátima Quintas é presidente da Academia Pernambucana de Letras. E-mail: fquintas84@terra.com.br

A ALDEIA UNIVERSAL DE CÍCERO DIAS


A gente vai, volta, faz pesquisas e mudanças, mas sempre redescobre a força das raízes e da infância. É inútil o artista querer fugir à evidência dessa realidade intemporal. (...) Jundiá permanece como a capital da minha vida, em Paris ou onde quer que me encontre (Cícero Dias).


            No município de Escada, a 53 quilômetros do Recife, um menino trelava no canavial, deliciando-se com a cor vermelha do massapê oleoso e pegajento, com o amarelo-ouro de um sol que não se resignava à sombra do crepúsculo, com o brilho de um verde que se espalhava por um extenso canavial.  Dessas cores tão tropicais, vívidas, estridentes — ao contrário de Gaughin que precisou “exilar-se” na Tailândia para sentir a pureza cromática —, Cícero Dias absorveu precocemente, ainda nos verdes anos de criancice, a sua identidade pictórica, poética, humanística. E jamais negou o pacto selado na infância: uma aliança que, como todas as precoces alianças, transbordavam de si mesmas — o verde do canavial em conluio com o verde do mar. Um e outro em perfeita sintonia. O mesmo verde amado-amante de Federico García Lorca — verde que te quiero verde.
            Tudo aconteceu em Jundiá, nome indígena que significa peixe de água doce — yundi = a espinha e á = cabeça. Os malabarismos infantis o marcaram de forma indelével: fábulas, histórias mágicas, mentes povoadas por chamas mitológicas; moças bonitas com seu pisar descalço, pernas a receber o húmus da terra bem colado à epiderme; cantigas em refrão a ensinar desde então os traquejos da vida. Do núcleo primevo emanaram as fantasias de um pintor que se notabilizou nos seus inícios (1929) pelo carismático painel intitulado Eu vi o mundo... Ele começava no Recife. Esta a verdade ontológica de Cícero Dias. E de todos nós. O mundo começa e termina nas idéias lendárias da origem. De Jundiá, a menor aldeia do universo, brotavam os passos para fronteiras outras.
            O mundo nasce onde a gênese se firma, não importa se no município de Escada ou nas frenéticas Avenidas de uma Paris carregada de luz e de vanguardismos. Cícero nunca desprezou o sentimento de artista engajado nas causas sociais — justiça e liberdade. O jeito de menino aperfeiçoou-lhe a capacidade intuitiva de quem está disposto a conviver com o humano como parte integrante dessa humanidade. E as reminiscências lhe serviram de calço à estrutura de uma personalidade impregnada de cor e forma como simbolismo maior da existência. O seu universo sensorial revela-se na estética da emoção e na beleza da arte, por vezes até impactante — afinal, a arte não tem pecados; nele, as manifestações interiores desfilavam na firmeza das tintas, um dégradé que lhe enchia os olhos e a alma, ou nos recursos de uma paisagem que se transfigurasse nas sendas imberbes da meninice. De Jundiá para o infinito. De Jundiá para além de si. De Jundiá para a transcendência.    
            Pintor modernista e regionalista, adepto aos atavismos, às crendices internalizadas nos desvãos do engenho, não desprezou as brincadeiras inocentes ali experienciadas, assim como as malícias de um adolescente que já assegurava a sua identidade em glebas da Mata Sul de Pernambuco. Aos 13 anos, mudava-se para o Rio de Janeiro, em regime de internato no Colégio São Bento, sem deixar para trás as recordações de um tempo germinador. Nada modificava o caráter já formado daquele que caminharia mundo afora, carregando a saudade da cama de Jundiá, do assoalho feito de tábuas de madeira-de-lei, das aulas de pintura de tia Angelina. De que mais necessitava Cícero para compor a luta visionária, as fases inspiratórias, o destino de menino de engenho?
            A sua universalidade advém justamente de um regionalismo saudável e genuíno. O pluralismo validava um nome que se inscreveu nos muros de Jundiá alongando-se até Paris, cosmopolita, celeiro de movimentos literários, musicais, artísticos. Conviveu na intimidade com Gilberto Freyre, José Lins do Rego, Ascenso Ferreira e, juntos, consolidaram respectivamente no ensaio, na prosa, no poema, na pintura a visão de um ethos representativo do retrato da nordestinidade. A arte, a sua, emergia do cheiro de melaço do amplo canavial para ganhar a dimensão universal.
            E a força da sua expansividade remonta aos sonhos preservados nos escaninhos da infância. As lembranças alimentaram o imaginário, tornando-o “um escravo da memória” ao transformar o passado em imagens significativas e metafóricas, pintura efervescente com saibo de açúcar e de doce, ao ponto, de jaca, ou com a inocência de mulheres entregues à sensualidade do sol tropical. O verde da cana a acasalar-se com o verde do mar — o mar do Recife, esse, sim, verde, verdíssimo — para transbordar no pincel inquieto de um homem enredado nos ícones fantasmáticos e dionisíacos dos tempos dos bangüês.
            Cícero Dias, o pintor do verde do canavial, do verde do mar de sua terra e “do céu mais alto do mundo”, o do Recife.          


Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras. E-mail: fquintas84@terra.com.br
Imagem retirada do site: http://wwwescadaresgatandonossahistoria.blogspot.com.br/2010/03/casa-grande-do-engenho-jundia.html

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

CARTA A RENATA CAMPOS



Confesso que hesitei em escrever este artigo. Não temos uma relação de intimidade, porém sinto-me envolvida por um sentimento de tamanha dor e perplexidade que me encoraja a abraçá-la com fé e esperança. Às vezes, percebo-me impulsiva, mas perdoe-me, Renata, o jeito de ser: não consigo segurar a emoção; as palavras jorram num gesto alheio a mim. Então...  
Era uma quarta-feira como outra qualquer. Acordei no horário de sempre, mas estava apressada para finalizar alguns trabalhos iniciados. Sentei-me ao computador e trabalhei a manhã toda. Almoço na mesa, começava a deliciar-me com a refeição rotineira. De repente, o telefone tocou: uma amiga gaguejava do outro lado do fio. O que aconteceu... o que aconteceu... Eduardo Campos falecera em acidente aéreo. Não acreditei. Liguei a televisão, os fatos começavam a se delinear ainda desencontrados. A cena era arrepiante. Uma bola de fogo no ar, diziam os moradores do bairro de Boqueirão, em Santos. O avião despedaçara-se.
Face devastada, minha alma sofria. Eduardo Campos abruptamente se encantara. Feneciam seus tão lídimos propósitos, ainda que a determinação, o tino político, o otimismo estampado no rosto, olhos verdes/azuis, brilhantes como se fossem de cristais, riso permanente, manejo nas articulações sociais se perenizem. Perenizam-se no líder, no talento mobilizador, no idealismo transfigurado no Sonho de aglutinar ações em torno de um projeto político renovador. O carisma ofertava-lhe o escudo da perseverança, da arte do fazer humanista, da luta aguerrida por um país melhor — “Não vamos desistir do Brasil”.
            Como sabia lidar com as emoções! Tanto as políticas como as familiares. Sobretudo as familiares. É exatamente neste ponto que almejo me deter. Se político nato manteve-se em todas as horas, Eduardo jamais relaxou a ternura de pai extremado e marido exemplar. E você, Renata, a mulher em quem depositou a confiança do diálogo nas escolhas e decisões mais importantes; recatada, ao seu lado, de mãos dadas, pensamento uníssono; o mesmo curso de Faculdade, Economia, as mesmas vontades, os mesmos quereres. Sempre me chamou atenção o lado coeso dos laços domésticos que conseguiram conquistar: amaram-se, com amor absoluto, e amaram a todos que rodeavam o nicho sagrado da casa. Eduardo, apesar da agenda transbordante, jamais relaxou o apego aos filhos e à querida esposa. Havia uma fragrância de carinho, germinada desde os tempos de adolescência. A valentia e a coragem com que hoje, Renata, você vem conduzindo a tragédia que abalou o Brasil, destroçada por dentro, sabemos, mas aparentemente firme, dotada da fortaleza dos sábios e do inquebrantável compromisso em dar continuidade aos passos do homem-amado, deriva da solidez de raízes verdadeiras e hercúleas, plantadas lá atrás: você, com 14 anos; ele, com 16. Nada brota do vazio, a crença no renascimento das ideias necessita de uma origem alentadora, edificada sobre pedra. A densidade familiar resulta da agudeza dos espíritos nobres, assim, Renata, a canção da serenidade e da resistência explode.
            Tudo parece convergir no sentido de uma comunhão que se prolonga em atos subsequentes: você é filha do meu querido amigo, Ciro de Andrade Lima, homem de fé inabalável, médico voltado para o social, íntegro nas ações e na ânsia de ajudar ao próximo. Platão já apontava o belo e o bom como máximas da humanidade. Naturalmente que o equilíbrio interior não desponta sem um mastro de sustentação. Há todo um processo de evolução na mística do amor. Eduardo, Renata, Maria Eduarda, João, Pedro, José e Miguel fazem parte de uma estrutura egressa do afeto. Aí reside o vigor da construção de sólidas personalidades. 
            Este é um texto de reverência aos afinados acordes da sua família. Nele, procuro exaltar a intensidade dos elos mais íntimos. Um amor eterno. Existe uma aura, a resplendecer dessa gravura iluminada. Se todos compreendessem a significação de um alicerce doméstico bem fortalecido, o mundo seria humanamente humano.
            A morte precoce de Eduardo Campos, minha cara Renata, transformou-o num Mito, e volto a citar os gregos, agora, Menandro: “os deuses amam os que morrem jovens”. Fique certa de que o silêncio dos mortos fala mais alto que o grito dos vivos.           

Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras. E-mail: fquintas84@terra.com.br